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Obituário

Do céu da terra...para o céu do céu!

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A maior paixão dele, era pela aviação, mas não aos voos tradicionais e sim a acrobacia
Por Rodrigo Finardi
Foto Arquivo pessoal

Sábado, 22 de janeiro, 10 horas da manhã. Estava na redação do jornal. Terminei o que estava fazendo e fui até a casa da minha Mãe e do meu Pai Fumaça (Paulo Renato Berto).

Conversávamos na sala, sobre vários assuntos, e combinamos um churrasco para domingo. O Pai Fumaça queria comer carne de ovelha, e por conta da amputação de um braço (em função de um câncer), tinha suas limitações, porém nunca reclamou da vida. Então, marcamos para domingo, eu iria assar.

Quando o relógio marcava por volta das 11h15min, ele levantou, pegou um saco de lixo, desceu as escadas para ir até o mercado. Essa foi a última vez que vi ele em vida. Ele nos deixou por volta das 13h45min, vítima de um infarto fulminante, no seu quarto, na sua cama, como queria. Sempre dizia: “não quero ir para o hospital. Não quero dar trabalho para ninguém”.

Às 14h12min, recebo ligação da minha mãe, relatando o ocorrido. Antes de partir, estava se arrumando para participar, às 14 horas, do encontro semanal da Rosacruz, ordem que era membro desde 1971 (51 anos).

Paulo Renato Berto, o Pai Fumaça, meu padrasto, meu pai legítimo. Nos criou, eu e meus irmãos desde o final dos anos de 1970. Por isso, aquela máxima que pai é quem cria e não quem faz é realidade. Nos deu amor, que o pai biológico não o fez. Nos puxou as orelhas quando precisou, nos orientou, ajudou de forma intrínseca no nosso caráter. Nos ensinou valores, o certo e o errado.

Quando nasceu sua filha (Paula Renata), com minha mãe Stela, em 10 de junho de 1981, ele nunca fez qualquer distinção por ser filha de sangue, com os outros três enteados (Rodrigo, Maurício e Leandro). Tratamento equânime, digno de pessoas de coração bom, o mesmo coração que o levou para um novo plano.

 O texto que segue, escrevi no Dia dos Pais de 2021, e publiquei nas redes sociais. Sempre tornei público, os sentimentos e a gratidão por ele ter entrado em nossas vidas.

O Pai Fumaça é daquelas pessoas que quando chegam em qualquer lugar irradiam uma alegria incomum, com sua maneira de ser, espontaneidade, e acima de tudo, com um prazer de viver incalculável.

E, por que ele é uma das pessoas mais importantes de nossas vidas? Imaginem uma mulher separada, no final dos anos 70, vir morar numa cidade pequena, com três filhos a tiracolo e ser abraçado por ele.

Só isso, já merece todos os elogios. Ele nos criou. Não é o pai biológico, mas tenho certeza que como eu e meus irmãos, isso é um mero detalhe. Ele é nosso PAI, com letras maiúsculas.

Ele caiu algumas vezes de avião, teve diabetes e há alguns anos foi diagnosticado com câncer. Passou por cirurgias e foi melhorando. Mas a doença voltou e tivemos que juntos tomar uma decisão. A amputação de um braço.

Parece o fim? Mas não é. Enquanto minha mãe e a família estavam desesperados, ele mais uma vez, deu uma lição de vida. Superou com maestria, esbanjando felicidade e otimismo, fazendo nossos problemas serem tão pequenos.

Contei apenas duas histórias. O início de nosso convívio e a última provação. Dá para imaginar o que teve nesse entremeio de mais de 40 anos, do final dos anos 70 até hoje.

Fumaça, você é um anjo de carne e osso. Te agradecemos por tudo. Te amamos! Conte conosco sempre!”.

A morte dele nos pegou de surpresa. Apesar dos seus problemas de saúde, nunca estamos preparados. Mas tudo que ocorreu, a partir do momento que tornamos pública sua passagem, foram centenas de mensagens, ligações, que nos confortou plenamente. O que sabíamos dele, como ser humano em família, seus amigos, corroboraram com várias passagens de sua vida. Ajudaram a deixar o momento mais leve. Ele era na plenitude de sua vida, uma pessoa de bem.

Em nome da família, agradeço de forma emocionada, a cada um de vocês, que compartilharam histórias dele. Não gostaria de citar nomes, pois com certeza irei deixar muitos de fora. Mas faço menção à Rosacruz, que fez uma linda homenagem na noite de sábado, na Capela do Caridade, aos amigos tenistas do Piscina Clube, e ao Aeroclube de Erechim e seus pilotos espalhados pelo mundo inteiro e, também, a Maçonaria.

O momento do enterro, deixou todos arrepiados. O “Italianinho” pilotando o avião Christen Eagle, representando o Aeroclube de Erechim e outros pilotos, acompanhou o cortejo até o Cemitério Pio XII. E dos ares, onde o Fumaça mais gostava de estar, brindou a todos com um espetáculo de acrobacias no céu de Erechim. E, nesse momento, tenho certeza que ele estava ao lado do Italianinho, em cada manobra. Até a chuva que se armava, esperou. São Pedro foi generoso com os que estavam em terra, mas com os olhos no céu.

Ele era sentimental, mesmo não mostrando. Logo após seu velório eu e minha irmã abrimos um armário que ele matinha trancado, com algumas coisas suas. Em cada envelope que abríamos, ou foto que víamos, vislumbramos um coração cheio de amor. Achamos uma carta que minha irmã escreveu para ele, quando recém estava alfabetizada. Ninguém sabia da existência dela, entre outras coisas. Nos ensinou amar ao próximo, a melhor das heranças.

Encerro esse texto com os olhos cheios de lágrimas, mas de alegria pelo legado dele. E deixou uma citação de Sócrates, que resume muito bem o que o Pai Fumaça pensava da vida: Porque morrer é uma ou outra destas duas coisas. Ou o morto não tem absolutamente nenhuma existência, nenhuma consciência do que quer que seja. Ou, como se diz, a morte é precisamente uma mudança de existência e, para a alma, uma migração deste lugar para outro”.

 

 

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