Eu assisti, nesta semana, a um filme chamado “Um olhar do paraíso” (Peter Jackson, 2009) – que recomendo ao caro leitor/a. É um filme que nos deixa face a face com o mal, e, mais que isso, com o problema da existência do mal, da necessidade de reconhecermos o mal e a impossibilidade de dissolvermos o mal, e da ideia de que o mal está sempre, ou mais ou menos sempre, à espreita. A persistência do mal: a vida é por um fio. Não é à toa que uma das orações mais célebres jamais concebidas (e que, se diz, concentra em si o cerne da teologia cristã) termina com um apelo: “livrai-nos do mal” – um apelo que é também a aceitação resignada de uma impotência em última instância. Deus, no contexto desse texto, é ele quem deve livrar-nos do mal, uma vez que nós mesmos não seríamos suficientes para fazê-lo. O mal nos ultrapassa.
O que fazer? Deng Ming-Dao, numa clave cultural diferente e com o pragmatismo típico dos velhos taoístas, sugere que lidemos com o mal reconhecendo-o e enfrentando-o na arena que nos é mais sensível e próxima: a de nossa vida cotidiana. Cito:
“Não importa em que mundo você penetre - escritório, escola, templo, prisão ou as ruas -, há um submundo habitado por demônios. São as pessoas avarentas, agressivas, sádicas e cínicas. Elas não apenas tiram vantagem dos outros sem remorsos como também se deliciam com isso. Têm prazer no sofrimento dos outros. Não é possível explicar por quê. O fato existe, sem nenhum significado metafísico nem outras ramificações. Não é carma, não é destino. Se essas pessoas decidirem atacá-lo, isso será incidental. Ou você luta, ou é exterminado.
A compaixão e a humildade podem estar entre as virtudes humanas mais valiosas, mas não são úteis no conflito. Uma bela estátua de ouro do seu deus mais adorado é um tesouro, mas você não a usa como arma. A virtude deve ser valorizada no contexto adequado: numa batalha, apenas uma espada servirá. Quer se trata de um ataque físico - assalto, estupro, assassinato -, quer se trata de um ataque mental - intrigas em negócios, abuso emocional -, você deve estar preparado. É melhor preparar-se para o conflito aprendendo tanta autodefesa quanto possível. Você não se tornará um valentão nem um monstro, mas aprenderá que pode reagir a qualquer situação. Se nunca for atacado, isso será maravilhoso. O treinamento, ainda assim, irá ajudá-lo a resolver seus medos, suas inibições e suas angústias. Em caso de conflito, ninguém, nem mesmo um veterano, jamais tem certeza de sair vivo de um confronto. Mas decide continuar e dar a si mesmo uma chance de luta. Isso, em si, já é um triunfo sobre o mal."
É como se Deng Ming-Dao ecoasse um taoísta da ficção, Mestre Khan (“Kung Fu, the series”, 1972-1975), no melhor estilo da sabedoria proverbial chinesa: “Aqueles que negam o mal no homem permanecem fracos e indefesos. É preciso lidar com o mal através da força – mas afirmar o bem através da confiança. Assim, nós nos preparamos para o mal, enquanto encorajamos o bem.” A confiança, se vê, seria a chave: “A desconfiança afirma o mal no homem, uma vez que nega a oportunidade do bem.”
A encrenca em que estamos metidos não é pequena, caro leitor/a.