Desde menina, Marlene Detoni já se via como professora. Nas brincadeiras, era sempre ela quem comandava a “sala de aula”. O tempo confirmou o chamado: fez do magistério sua missão e da educação um verdadeiro sacerdócio. “Eu era apaixonada por ensinar. Sempre quis fazer diferença na vida das pessoas”, conta.
Natural de Marau, construiu em Erechim uma jornada inspiradora. Casada com o jornalista e advogado Waldemar Detoni Júnior, mudou-se para a cidade em 1962, onde decidiu concluir os estudos e realizar o sonho de atuar na Educação.
Formou-se em Contabilidade no Colégio Medianeira — tendo o marido como professor de Economia e Direito — e, mais tarde, cursou Estudos Sociais, encontrando na docência um espaço para unir conhecimento e sensibilidade. “Ele acreditava no meu potencial e sempre me motivou a seguir esse caminho”, relembra.
Uma vida em sala de aula
Marlene iniciou a carreira no Seminário de Fátima, onde teve entre seus alunos nomes que mais tarde se tornariam padres. “Sempre vi o aluno de forma integral, me preocupava com a família, com o ambiente. Queria formar cidadãos”, afirma. Os alunos vinham de diferentes municípios do Alto Uruguai, e a convivência com eles trouxe lições para toda a vida. “Senti-me um pouco mãe ao ver a saudade que sentiam da família. Esforcei-me ao máximo para contribuir”, diz.
Entre as recordações, Marlene cita um episódio que demonstra a curiosidade e o encantamento dos jovens. “Da sala de aula dava para ver a chegada dos aviões. Quando um deles aterrizou, os alunos subiram nas cadeiras para assistir. Prometi que falaria com dois amigos pilotos — o Dr. Altair Menegati e o contabilista Jairo Castro — e consegui um passeio de avião para a turma. Foi uma emoção enorme”, relembra.
A atividade serviu também como aprendizado. “Na aula seguinte, estudamos fusos horários localizando países e capitais. Eles não queriam passar para outro conteúdo”, diverte-se.
“Ser professora é preciso ter vocação, respeito e muito amor. Podemos considerá-la a mais nobre das profissões, porque dela advêm todas as outras”, reflete Marlene.
Da sala de aula à gestão escolar
Após experiências no supletivo da Escola Vicente da Maia e em Barra do Rio Azul, onde lecionou até os sete meses de gravidez, Marlene foi convidada a integrar o corpo docente da Escola Polivalente, atual Érico Veríssimo, onde permaneceu por cerca de 20 anos, sendo três deles como diretora.
“Nunca reprovei ninguém. Quando o aluno ia mal, criava novas formas de ensinar — até palavras cruzadas eu inventava para estudar os conteúdos”, recorda.
Depois do nascimento da filha, foi chamada para atuar na Escola Polivalente — hoje Érico Veríssimo — onde permaneceu por cerca de 20 anos, sendo três deles como diretora. “Quando cheguei à escola, fazia até jardinagem”, lembra, referindo-se à falta de estrutura da época.
A trajetória em sala de aula abriu caminho para a gestão escolar. Como diretora, Marlene conduziu a transformação da instituição, que inicialmente oferecia apenas o 1º grau incompleto, implantando o Jardim de Infância e as séries restantes, tornando-a uma escola de 1º grau completo. “Foi uma conquista enorme para a comunidade. Tínhamos o sentimento de estar construindo algo novo”, lembra.
O avanço contou com o apoio da comunidade: a empresa Dal Pra doou mesas e cadeiras, enquanto a Prefeitura, por meio do prefeito Elói João Zanella, contribuiu com recursos para reforçar a merenda escolar e com a doação do parquinho. Marlene também criou o Grêmio de Professores, do qual foi a primeira presidente, organizou eventos e implementou o projeto odontológico Sorriso, voltado à promoção da saúde bucal dos alunos.
No fim da carreira, integrou a equipe da 15ª Delegacia de Educação de Erechim (DEE). “Tive a honra de trabalhar sob a orientação do professor Guilherme Barp, um verdadeiro mestre. Esse projeto, em parceria com a Secretaria de Educação do Estado, foi um ato de amor à pedagogia e um testemunho do poder da colaboração”, destaca.
Entre o ensino e o serviço comunitário
Fora da sala de aula, Marlene ampliou sua atuação social. Participou do Rotary, da Casa da Amizade e presidiu a Associação de Apoio ao Idoso, onde criou 16 grupos de convivência. “A conquista do primeiro Centro de Convivência do Idoso foi uma grande alegria. Era lindo ver a transformação das pessoas. No começo vinham com sacolas de remédios e depois traziam batom e escova de cabelo. O convívio era a verdadeira cura”, emociona-se.
Em meio às lembranças, Marlene preserva fotos, documentos, recortes, reunindo histórias. Entre essas iniciativas, a professora recorda com orgulho o projeto das fraldas geriátricas desenvolvido na Associação dos Idosos, uma ação que contou com o apoio decisivo da Sra. Linir Zanella, então primeira-dama. Graças à determinação de Marlene, a associação conseguiu uma máquina de fraldas, tornando possível a produção para todos os idosos de Erechim e região, garantindo cuidado e dignidade a quem mais precisava. “Às vezes me pedem para fazer um livro sobre isso, mas ainda me falta coragem. Está tudo guardado, esperando o momento certo”, diz.
Também promoveu eventos culturais marcantes para a Associação, como a Noite dos Talentos, realizada no Clube Atlântico, e concursos como Miss Terceira Idade e Miss Primavera.
Na Casa da Amizade, liderou o primeiro Encontro Distrital das Casas da Amizade do Rotary, sediado em Erechim, incentivando outras cidades a criarem suas próprias sedes. Além disso, contribuiu para a realização da feira de artesanato das Casas da Amizade do Distrito 466, que valorizou o trabalho manual e fortaleceu o vínculo entre as comunidades.
Com o mesmo espírito de acolhimento, mantem um sítio no bairro Três Vendas, usado nas confraternizações com alunos. Hoje, o local abriga a associação beneficente Recriando a Vida, que atende cerca de 100 crianças em vulnerabilidade, oferecendo alimentação e atividades recreativas, além de hortas comunitárias para as famílias.
Legado e reconhecimento
Pelos serviços prestados à educação e à comunidade, Marlene Detoni recebeu o título de Cidadã Erechinense. Formada também em Contabilidade e aluna da primeira turma da URI, ela se diz realizada. “Aqui formei meus filhos, fiz minha vida e construí amizades. Erechim me acolheu e eu a abracei de volta”, afirma.
Orgulhosa, fala com ternura dos ex-alunos que encontra nas ruas, muitos hoje profissionais reconhecidos. “Até hoje recebo mensagens dizendo que fui uma professora inesquecível. Esse é o maior presente que um educador pode receber.”
Com um sorriso sereno, conclui: “Tudo o que fiz foi por amor e pela vontade de ver as pessoas felizes. E foi com o coração que vivi cada momento da minha história.”