Sou Neusa Cidade Garcez, mestre em História Ibero-Americana pela PUC-RS. Historiógrafa concursada e aprovada em 3º lugar — o Diário Oficial de 25 de maio de 2002 publicou o resultado.
De todos os cursos, seminários e eventos dos quais participei, tanto no Brasil como no exterior; de todos os livros que pesquisei e publiquei de modo sério e ético, sem copiar ou usar trabalhos alheios sem permissão dos autores; de todas as homenagens recebidas durante minha longa caminhada, nada me honrou mais do que o título de professora — educadora que eu mesma me concedo.
Apaixonada por livros e por aprender, por entender o humano e sua criação, iniciei muito jovem a dura jornada de ensinar, de caminhar ao lado dos educandos. Fui monitora da FEPLAM, em dois rádio postos. Em um deles, na antiga Escola Nossa Senhora da Salete, compartilhei saberes com cem alunos reunidos em um pavilhão da escola. Eu, ainda adolescente, junto de pessoas mais velhas, construímos um universo de respeito, afeto e amizade — laços que permanecem vivos até hoje.
Logo após, durante o dia, lecionava na escolinha municipal São José para incríveis cinco turmas em sala única.
Levantava às 4h30 para acender o fogo no fogão a lenha, tomar café e ir a pé até a rodoviária, onde o ônibus das 6h me levava até o local das aulas, que iniciavam às 8h, quando o dono do terreno vinha abrir a única porta. Eu, de pé, esperava, mesmo sob chuva. Voltar a pé até as Três Vendas, sob sol ou chuva, era rotina diária. Eram dez quilômetros — sem linha regular de ônibus, em estrada deserta, sem casas, só mato. Muito medo, muitas lágrimas. Mas o amor por aqueles “serezinhos” me fazia forte.
Ao mesmo tempo, fazia duas faculdades em Passo Fundo, sempre procurando aprender e crescer na profissão que tanto respeitava. Minhas correrias, muitas vezes sem me alimentar, eram consideradas loucuras pela família, mas eu persistia, sem pena de mim.
Certa ocasião, trabalhei em cinco escolas no mesmo dia, correndo de uma para outra, sempre a pé. Depois de estudar até de madrugada e sem feriados, fui aprovada em dois concursos para o Estado.
Gaurama foi a primeira escola estadual onde lecionei, de segunda a sábado, cumprindo dez períodos — que, se houvesse caridade da direção, poderiam ser feitos em três dias. Ao chegar a Erechim, quando não perdia o ônibus, embarcava sem almoço para assistir às aulas em Passo Fundo. Às 20h, já de volta, corria a pé até o Mantovani (sem jantar) para dar aula aos meus muito amados alunos. Eram turmas maravilhosas, para as quais eu procurava ser a melhor professora possível — respeitando-os e oferecendo afeto e compreensão. Dali, nasceram sólidas amizades.
No Instituto Barão do Rio Branco, vivi momentos inesquecíveis como educadora e amiga de meus alunos. Recebi afeto e reconhecimento que guardo até hoje.
No CCAA, fui abençoada com alunos-amigos que me enriqueceram em humanidade. Eu os sentia como parentes amados. Fizemos juntos muitos eventos celebrando a cultura e o idioma espanhol.
Sempre fui movida pela esperança de que, quanto mais estudasse e pesquisasse para oferecer excelência em minhas aulas, mais digno seria o futuro — e assim eu poderia proporcionar uma vida merecida aos meus batalhadores pais.
O futuro, porém, mostrou-se amargo, nebuloso e pouco gratificante. Entretanto, no difícil pesquisar, escrever e estudar, eu não sentia o tempo passar. Lecionar no Wizard, em Concórdia, e chegar em Erechim à 1h30 da madrugada não me desanimava. Em todas as escolas onde trabalhei, as aulas eram preparadas com dedicação, respeito e afeto. Meu prêmio sempre foi a certeza de estar agindo bem e de aprender mais do que ensinar.
Ao ingressar na URI Erechim como professora de Espanhol e, em especial, de História, percebi que minhas batalhas, derrotas e cansaço haviam recebido um prêmio muito esperado — que encheu minha alma de luz e gratidão. Cada ementa era seguida com rigor, com pesquisas e viagens para transmitir o que vi e senti in loco, para que cada encontro com meus discentes fosse um marco de verdades enriquecedoras.
Na URI Erechim, pude concretizar um grande sonho. Com apoio da direção do campus, elaborei o projeto “Remexendo nos Sobrados e Porões”, pesquisando de modo tenaz e responsável, resgatando milhares de peças para o Museu de História, musealizando e devolvendo socialmente o patrimônio cultural.
Participei de dezenas de eventos, publicando textos para preservar o rico acervo histórico da cidade. Minha guerra foi inglória, com muitas derrotas, mas cresci nas lutas travadas, sabendo que cumpri meu ideal — e me parabenizo pela coragem das tentativas feitas.
Ter seguido com tenacidade, com amor ao trabalho de professora e educadora dedicada, me dá orgulho e honra, mesmo consciente da injusta remuneração e da desconsideração com que é tratada tão nobre profissão.
Minha convicção, ainda hoje, é de que, para exercer o magistério, é preciso possuir vocação sólida, demonstrada com ética, valores, fé — e a sensibilidade de perceber, em cada educando, uma semente de onde poderão brotar excelentes cidadãos.