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Opinião

A linguagem encantada da infância

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Sempre apreciei o português correto e, depois que me tornei jornalista, isso se acentuou. Gosto da gramática em dia, claro, sem paranoia, até porque ninguém está livre de erros e sabemos que a nossa língua é complexa. Porém, como pai, me concedo o mais doce dos direitos, o da licença poética de deixá-lo reinventar o português do jeitinho dele.

Nunca conversamos com nosso filho utilizando a famosa “linguagem de bebezinho”. Sempre falamos normalmente, com o intuito que ele aprendesse a se comunicar bem desde cedo, mas algumas palavras em aprendizado são tão bonitinhas que não dá vontade de corrigir.

Outro dia, por exemplo, estávamos brincando de “avidinha”. E eu não tive coragem de corrigir. Afinal, quem vai “adivinhar” quando se pode “avidinhar”? É quase como se a palavra tivesse descoberto um jeito mais bonito de existir.

O zoológico aqui de casa é um espetáculo à parte, o hipotópamu divide espaço com a viafa, e ambos convivem pacificamente com o pacagaio, que, por sinal, costuma falar mais do que apenas repetir. No quintal, a pataluda caminha devagar, sem pressa de crescer, enquanto o jardim ganha mais vida com a visita da delicada joaozinha, que pousa na palma da mão dele como se entendesse cada palavra. As boetas coloridas voam ao redor, conversando e brincando e, eles se reconhecem, pois sabem exatamente quem são. Quando a noite chega, o céu se ilumina com gavalumes e, às vezes, em época de Halloween, aparecem tuntavas tão assustadores quanto fofos, que o fazem rir de encantamento com seu “búúúúú” inconfundível.

Na cozinha da imaginação, o cardápio é decilioso, calamão no almoço e embuguer com pepinos do vovô no “almoço da noite”, porque é sempre “almoço”, mesmo que seja janta. Para a sobremesa, pode ser um kinder novo com surpresa ou então uva patas, mas somente as pretas. Afinal, nosso menino bom de garfo, é um comiloso.

Nos finais de semana, nossos momentos são ainda mais especiais, com um fafé quentinho de manhã e, se tiver espuminha, melhor ainda. Como todo bom gaúcho, temos o momento sagrado do pimamão. O auge é quando ele segura a cuia com as duas mãozinhas e se serve sozinho com a sabedoria de um veterano.

Quando sentamos para brincar, além de guardar tudo depois, há uma regra importantíssima, que é vidivi os brinquedos, um exercício de justiça infantil que muitos adultos poderiam reaprender. No campo das brincadeiras, aparecem os super-heróis e os carros como favoritos, porém, a cozinha também é um espaço de imaginação, só não pode mexer nas coisas eléquitas para não levar choque.

Quando o assunto é atividade física, o chutegol é o esporte preferido, e o Estádio da Sala Futebol Clube vira palco de muitos gols do Inter – ultimamente é só assim mesmo, infelizmente – e, a torcida da mamãe faz um barulhão, mesmo não sendo uma grande fã de futebol.

Quando deitamos para assistir um filme, temos os Jovens Jedi e o Star Wars com o Pició e até o Zesus verde - cada um com seu mestre, não é? -, outras vezes, vemos o filme do Binócu, que mente e o nariz cresce, ou o do cachorro chamado Camalelo, quando é a mamãe que escolhe o filme. Já para a hora de dormir, temos a hora da leitura, onde se lê um livro esquito e um livro de boca – história inventada -, e uma delas até virou livro esquito.

Ultimamente, ele tem tido pesadelos, mas ainda confunde e, com a sinceridade que só cabe em um pequeno coração, reza para o anjinho e para a Boa Mãe para dormir bem, porque ele “tem sonhos”. E, no fim das contas, não está errado, afinal, se pararmos para pensar, pesadelos são apenas sonhos do avesso. E agora, ele decidiu esquitá os sonhos, mas só os ruins, e dar para o bicho do pesadelo comer e então ter sonhos bons.

Fora os clássicos “eu fazeu”, “eu fazi”, “faz igual que nem mim”, expressões que, ditas por qualquer um, me deixariam nervoso, mas que, vindas dele, soam como a linguagem mais pura da infância. Uma fala que, infelizmente, vai se desfazendo com o tempo, se moldando àquela que conhecemos como a linguagem correta, porém sem poesia, sem personalidade, deixando uma saudade daquele serzinho descobrindo as palavras.

Um dia, inevitavelmente, até porque, já está acontecendo, o “hipotópamu” vai virar hipopótamo, o “camalelo” será caramelo, e o “pimamão”, apenas chimarrão. Mas enquanto isso não acontece, deixo que ele fale o mundo do jeitinho que o vê, cheio de magia e descobertas. E, sinceramente, acho que é assim que a vida deveria ser dita, vista e vivida, pelos olhos e pela linguagem das crianças.

E se eu puder dar um conselho aos pais, anotem e gravem as palavras ditas por seus filhos, montem um “dinossauro” com elas. Será uma linda lembrança para revisitar ao longo da vida.

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