Tem dias que a gente cansa de falar sobre assuntos sérios. Parece que o cérebro, a mente, as emoções, travam e se negam a qualquer gravidade, cenho franzido, trapézio e travessão, mais ainda no meu trabalho em que é necessário liberar as ideias, informações, intuições, estalos, aqueles insumos necessários, que depois de batidos e cozidos, irão para a forma digital do computador e a cada teclada se materializam em frases, parágrafos e, por fim, num texto.
Acho que o melhor seria simplesmente viver sem ter que estar pensando em tudo a toda hora e tendo que ser útil a cada minuto do dia. Está faltando tempo para simplesmente existir e não ter que ser obrigatoriamente produtivo. Isso está quase virando uma doença. Falta tempo para só viver sem ter que a cada minuto do dia estar pesando em tal e tal coisa, analisando, racionalizando, aqui e acolá. Tudo isso, às vezes, é muito cansativo, porque afinal de contas existir é finito para todos, e viver se resumiu a trabalhar.
Quando se fixa, mergulha, seriamente, nesta perspectiva da finitude para tudo que há por aí, família, amigos, churrasco, cerveja, cafezinho com pão de queijo, uma simples caminhada, sentir os aromas do campo, para se reduzir a um caixão de madeira dentro do cemitério para virar comida de vermes ou ser cremado e ter as cinzas guardadas ou espalhadas em algum lugar, muita coisa que era essencial e que achávamos necessário começa a ficar pelo caminho desta análise, fica para trás, distante, do que realmente importa. Muitas falas passam a não fazer sentido, muitas ações simplesmente ficam descabidas, muito do que se faz diariamente parece se perder no vazio.
A cada dia novas super tecnologias surgem e estão presentes nesta era digital, mas o trabalho não evolui neste mesmo ritmo nem em outro. Estamos cada vez mais autômatos, robotizados, presos a rotinas que nunca terminam, pelo contrário, ficando cada vez mais longas, cansativas e estressantes, sem sentido e perspectiva de mudar.
Pontualmente, parece que a tecnologia está sobrecarregando mais do que facilitando as tarefas. Se de um lado simplificou inúmeros processos, isso é inegável, por outro, exige uma produtividade sem fim, sem equilíbrio com a humanidade. Talvez seja só a minha percepção.
A impressão é que essa industrialização da rotina está transformando e levando o nosso lado humano, sensível, perceptivo, analítico, para o declínio, deixando-o desumanizado, roubando-lhes as características mais genuínas, que estão sendo varridas pela falta de uso, como simplesmente, parar, contemplar uma paisagem, ouvir, sentir, conversar, sem ter que correr para ser útil seja lá onde for. Parece que a experiência que não for mediada pela tecnologia não tem valor. Não há tempo para mais nada, só para os boletos.
Trabalhar, se sentir útil, ser produtivo é fundamental, é aí que se o ser humano se realiza e se descobre sujeito na sociedade, na interação com os outros, mas tudo se resumir a só isso é um enorme desperdício. É preciso tempo para perceber, sentir e vivenciar a realidade e não simplesmente engoli-la a seco e digeri-la a caminho do trabalho.
Acho que a vida sempre esteve a galope, nunca a vi no trote, contudo o mundaréu de novas tecnologias acelerou este processo, ao invés de equilibra-lo. Trabalhar, produzir, é vital, mas ser o horizonte último e final da única existência que temos é desesperador, principalmente, se não se enxerga saídas deste brete. E mesmo que haja outras formas de existir não serão iguais a esta. É preciso tempo para existir, além do ofício e das obrigações, tempo e vida começam e terminam juntos. Não? Experimente morrer para ver no que dá.