Vivemos tempos em que parecemos estar sempre correndo, o problema é que, na maioria das vezes, não sabemos para onde. Corremos na ânsia de dar conta de tudo, mas, no fim das contas, não damos conta de nada ou de quase nada. Esse comportamento é mais comum do que imaginamos, e é curioso observar como, diante de uma tarefa realmente importante, encontramos mil outras “prioridades” para ocupar o tempo. Organizamos gavetas, respondemos mensagens antigas, lavamos a louça, resolvemos pendências que poderiam esperar. O dia termina e o que realmente precisava ser feito continua ali, esperando. Tudo parece produtivo, mas não passa de uma forma sofisticada de procrastinação, uma fuga disfarçada de eficiência.
O problema não é falta de tempo, é falta de foco. Fazer o que precisa ser feito, na hora certa, exige enfrentamento e coragem, pois precisamos lidar com nossa própria resistência, com o medo do fracasso e com o desconforto de sair da inércia. Inconscientemente, fugimos disso ao nos concentrar em atividades que até parecem produtivas, mas que apenas nos afastam do essencial. Não que essas tarefas sejam inúteis, mas não são prioridades, não precisam ser realizadas naquele instante. Elas acabam servindo de escudo para não encararmos o necessário, por exemplo, fazer aquele trabalho que precisa ser entregue no dia seguinte, ter aquela conversa séria ou tomar uma decisão difícil. E, quando o dia termina, o saldo é o mesmo, exaustão e frustração, porque o tempo passou e “nada” de fato foi feito.
Então vem o segundo ato, o da transferência. E esse é outro problema, quando esse comportamento não para em nós. A frustração, muitas vezes, se transforma em impaciência com quem está por perto. De repente, o outro se torna culpado por nossa falta de tempo, por nossa desorganização, por nossa incapacidade de priorizar. É mais fácil culpar o mundo do que admitir a própria dispersão. Assim, o colega atrapalhou, o parceiro não colaborou, a família não compreendeu, o trânsito travou, enfim, todos viram alvo, menos nós mesmos. Todos viram bode expiatório de um caos que, na verdade, nasceu dentro de nós.
E continuar nesse ritmo tem um preço alto, pois as relações se desgastam, o ambiente de trabalho e familiar se torna pesado e, pior, passamos a acreditar na própria narrativa, nos vitimizando o tempo inteiro. Reconhecemos facilmente esse comportamento nos outros, mas raramente em nós mesmos. Assim, fica difícil manter vínculos, com os outros e conosco, pois não há espaço para reconhecer erros e rever hábitos.
A matemática é simples, mas a conta só fecha quando aceitamos que a responsabilidade é exclusivamente nossa. Assumir isso liberta, pois entendemos que existe uma diferença entre estar ocupado e estar comprometido, entre fazer muito e fazer o que realmente precisa ser feito. Talvez o primeiro passo para isso, seja parar, respirar e repensar. Não é fácil, pois exige sermos honestos com nós mesmos e admitirmos que nem sempre estamos ocupados porque temos muito a fazer, mas porque estamos fugindo do que realmente importa. Às vezes, o problema não é a falta de tempo, é o excesso de desculpas.
Dizemos que 24 horas por dia são poucas e que precisaríamos de 48. Na verdade, não precisamos. Se tivéssemos mais tempo, teríamos as mesmas queixas, inclusive, pedindo um dia de 72 horas, apenas para ter mais espaço para procrastinar. Precisamos reconhecer que o tempo não é o vilão. O vilão é o modo como o usamos para fugir de nós mesmos, focando no que pode esperar e deixando o que não pode para um “depois” que nunca chega, arrastando outras pessoas para esse ciclo.
Talvez o ponto de virada esteja em uma pergunta simples e incômoda: “o que estamos evitando enquanto nos ocupamos com tudo o que não precisa ser feito naquele momento?”.
O problema é saber se estamos preparados para a resposta e, além, se estamos preparados para enfrenta-la e realmente mudar.