Há um certo tempo ouvi o desabafo de uma mãe que havia perdido um filho, onde ela colocou, “eu achava que isso só acontecia com os outros, até perceber que nós somos os outros dos outros”.
E cada tragédia que acontece tenho sentido como se o cerco estivesse se fechando. Os noticiários, volta e meia trazem tragédias de todos os tipos, sempre dos outros. Em outros países, em outros estados, em outras cidades. Cada vez ficando mais perto. E dessa vez, fomos os outros dos outros. Aconteceu aqui, na nossa cidade, com pessoas que nunca vimos, com nossos conhecidos, com nossos amigos, com nossas famílias e até conosco.
O que aconteceu no domingo, dia 23, foi assustador, um choque coletivo. Pedras enormes atingindo casas, carros, plantações, causando destruição e pânico pela cidade. Ainda hoje e, por mais algum tempo, veremos rastros desse desastre pelas ruas.
Como sempre, em momentos assim, surgem diferentes reações. Os empáticos, os que desejam ajudar e colocam a mão na massa, abrindo mão até de suas próprias casas e problemas e, seguem adiante para ajudar. Há os que querem ajudar, mas travam, sem saber por onde começar. Há também os que parecem viver dentro de uma bolha, incapazes até de perguntar a seus colaboradores se estão bem, se tiveram perdas, apenas repetindo cobranças que soam absurdas diante do caos.
De um lado, empresas abrindo portas para doar materiais, de outro, comerciantes aproveitando a tragédia para superfaturar em cima da dor dos outros. E, enquanto isso, o Procon orienta que as pessoas, já exaustas, preocupadas com novas chuvas, tentando ao menos proteger o que restou, façam denúncias dos preços abusivos. Fica a sugestão simples e prática, que o próprio órgão coloque equipes nas ruas, fiscalizando e tomando as devidas providências. Imagino que também estejam com equipes reduzidas porque todos foram afetados, porém acredito que dê para organizar. As pessoas afetadas já tem muito o que se preocupar e fazer e, a ganância de certas pessoas, certamente, não deve fazer parte dessas preocupações, mas devem ser de instituições como o Procon que servem para amparar a população quando mais se precisa.
Apesar dos tropeços, do descaso de muitos, da aparência de outros, há uma força-tarefa atuando sem descanso, tentando devolver um pouco de dignidade a cada cidadão erechinense e, aos poucos, fazendo com que a vida volte minimamente ao normal. E então, lembro novamente daquela mãe, onde ela fala em como faz para viver, mesmo com aquela dor que a acompanha. “A vida é um ponto e nova linha a cada dia”. Encerramos a noite com um ponto na tristeza, na dor, na luta e no cansaço. Mas pela manhã, precisamos iniciar uma nova linha. A dor não vai desaparecer, o desânimo vai bater à porta, mas juntos, com empatia, respeito e unindo forças, vamos reconstruir a nossa cidade e dar um novo sentido a cada ponto, nova linha.