Me atrevo a comparar a atual situação da política brasileira com um período vivido por uma personagem do saudoso escritor gaúcho Luís Fernando Veríssimo: a Velhinha de Taubaté. Durante o governo João Figueiredo, a personagem era a única que ainda acreditava no governo naquele período. Pois bem. Em 2025, parece que ela não estaria mais sozinha. Ao contrário: agora ela se multiplicou. Virou legião. A diferença é que, hoje, cada velhinha acredita em coisas completamente diferentes, mas com a mesma convicção inabalável de quem acha que o filho nunca mente e que a inflação é culpa do vendedor do mercadinho.
De um lado, temos as velhinhas bolsonaristas, que juram de pés juntos que o ex-presidente é um mártir injustiçado, quase um São Jorge de motocicleta, perseguido por um dragão vermelho de nove cabeças, todas burocráticas. Se alguém menciona rachadinha, cartão corporativo ou certas mensagens pouco republicanas, elas mudam de assunto com a agilidade de quem vê uma barata voadora na sala.
“Isso tudo é armação!”, dizem elas, entre um vídeo do WhatsApp e outro.
No lado oposto da rua, tomam sol as velhinhas lulistas, que acreditam com a mesma fé que o Brasil estaria no paraíso se não fosse o “governo passado”. Afinal, se tem buraco na rua, culpa do governo anterior. Se chove demais, culpa do governo anterior. Se faz sol, também. E se nada disso cola, sempre há a velha carta: “Mas e o golpe?”.
Essas velhinhas defendem com fervor o governo que, somando idas e vindas, já está há quase duas décadas influenciando os rumos do país, mas continua falando como se estivesse arrumando a bagunça deixada por inquilinos irresponsáveis que passaram só um fim de semana no Planalto.
É um espetáculo curioso: duas torcidas organizadas que nunca se encontram no meio-campo. Enquanto uma acredita que só Bolsonaro presta, a outra acha que só Lula salva. E ambas, como boas torcedoras apaixonadas, se recusam a admitir falha, tropeço ou incoerência. A verdade, para elas, não é aquilo que acontece. É aquilo que elas acreditam.
Talvez o que falte ao Brasil NÃO seja uma nova Constituição, uma reforma tributária ou um pacote econômico. Talvez falte mesmo é um grande programa nacional de fisioterapia, mas voltado exclusivamente para o pescoço. Porque a maioria só sabe olhar para um lado.
E a velhinha original, aquela mesma do Veríssimo? Se estivesse viva, provavelmente diria, com a sabedoria dos anos:
“Meu filho… acreditar em político sempre dá rugas. O problema é que agora o povo anda acreditando demais.”
No fim das contas, somos um país cheio de velhinhas de Taubaté, cada uma com seu candidato preferido, sua verdade absoluta e sua vontade de acreditar que, se algo está errado, não é culpa de quem está no poder, é do outro, sempre do outro.
E assim seguimos, entre solavancos, memes e crises, tentando decidir o que é pior: o governo que passou, o governo que está… ou a nossa eterna mania de procurar culpados apenas onde nos convém.
Enquanto isso, o Brasil, como sempre, espera pacientemente que alguém pare de apontar o dedo e comece, enfim, a usar as mãos para consertar alguma coisa.
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