Provavelmente você viu alguma postagem sobre o rapaz que, literalmente, se jogou na cova dos leões e acabou morto pela leoa que vivia ali. O caso aconteceu em um zoológico brasileiro. O fato, por si só, já é trágico e triste, mas, como sempre, as redes tratam de multiplicar versões e espalhar vídeos do momento. Era fugitivo, era criminoso, era louco, tinha transtornos mentais, queria ser domador de leões na África, ou tudo isso ou nada disso.
Fora as versões do fato, há os julgamentos, de todos os tipos, mais intensos ou menos intensos, dependendo de qual recorte foi visto e tomado como realidade absoluta. Vivemos uma epidemia de gente que confunde opinião com conhecimento, moralidade com superioridade e empatia com fraqueza.
O curioso, ou triste, como preferir, é que, independentemente do que realmente tenha acontecido, do que seja fato ou fantasia, esse episódio me leva a pensar muito menos sobre ele e muito mais sobre nós. Reduzimos vidas complexas a rótulos prontos. E fazemos isso, principalmente, porque nos exime da desagradável tarefa de reconhecer que somos tão contraditórios quanto aqueles que julgamos. Só não sei bem se é por preguiça ou por egoísmo.
Não somos apenas uma versão de nós mesmos, não somos nem perto de sermos singular. O ser humano é múltiplo, contraditório e cheio de camadas que nem mesmo Freud e seus “comparsas” foram capazes de decifrar. Carregamos medos que escondemos, desejos que negamos, falhas que abominamos nos outros, mas esquecemos que, em maior ou menor intensidade, elas também nos habitam. E é justamente por fazerem parte de nós e, por ser tão doloroso reconhecê-las, que julgamos tanto. Apontar o dedo para o outro parece trazer uma sensação de alívio, enquanto evita que olhemos para dentro.
Essa história, como tantas outras, escancara o egocentrismo, a nossa dificuldade crescente de enxergar além do “eu”, de admitir que somos todos feitos de bem e mal, de erros e acertos, de força e fragilidade. Somos contraditórios por natureza, e talvez o problema não seja essa pluralidade, mas a teimosa recusa em admiti-la. Somos falhos, mas fingimos que não, pois é muito mais confortável projetar nossas próprias sombras nos outros. Aquilo que odiamos nos outros, quase sempre, é aquilo que não temos coragem de encarar em nós mesmos.
No fim das contas, essa história é só mais uma daquelas que nos servem de espelho. Um espelho distorcido, mas ainda assim um espelho que mostra o que nos tornamos, uma sociedade narcisista, apressada e moralmente preguiçosa, em que só o “eu” importa, o “eu” indignado, o “eu” ofendido, o “eu” que sempre acha que sabe mais. E, enquanto estivermos todos ocupados demais em julgar a cova alheia, vamos seguir negligenciando os nossos próprios leões.