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Opinião

Vem chegando o Natal

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

A palavra Natal já desperta inúmeros sentimentos, das crianças aos idosos, em todas as classes sociais e lugares do mundo. Magia, alegria, amor, o nascimento de Jesus, presentes e, claro, o Papai Noel. Essa figura mística que vive no Polo Norte, observa as crianças durante o ano e, na noite do dia 24, percorre o céu com seu trenó, guiado por renas, para deixar os presentes pedidos nas cartinhas. Ou então envia seus ajudantes para dar conta da entrega e, convenhamos, ser Papai Noel nos trópicos não é tarefa simples. Vestir aquela roupa pesada com termômetros marcando 30 graus só é aceitável no conforto do ar-condicionado.

Mas minha questão hoje não é sobre a roupa do Papai Noel, nem sobre religião, consumismo ou debates sobre o “verdadeiro espírito natalino”. Minha questão é sobre quem veste a roupa do Papai Noel. Quem recebe a tarefa de espalhar a magia do Natal sem apagar o brilho dos olhos das crianças.

Quando eu era criança, praticamente éramos obrigados a sentar no colo do Papai Noel. Tínhamos que ser “educados” e demonstrávamos isso beijando, abraçando e sentando no colo e, não só dele, mas de qualquer adulto que pedisse, mesmo quando não nos sentíamos confortáveis. Isso era considerado respeito. Porém, o respeito nem sempre era recíproco e nem todos esses adultos tinham boas intenções. Bom Velhinho? Será?

Eu, pessoalmente, não me lembro de ter vivido situações de abuso. Mas não posso afirmar o mesmo sobre outras crianças. Hoje, adulto, entendo que o medo que muitos sentiam não era da fantasia, mas do que havia por baixo dela. Um medo intuitivo, que o corpo reconhecia antes mesmo de a mente saber nomear.

Nós, adultos, precisamos preservar a infância das nossas crianças. Precisamos abandonar nossas expectativas “instagramáveis” e lembrar que a fantasia é apenas fantasia, que quem está por baixo dela é um desconhecido e não podemos empurrar nossos filhos para esse desconhecido sem cuidado. Criança sabe e sente. O desconforto, a resistência e o choro não são birras sem sentido e nem falta de educação. São alertas que devemos respeitar.

Jamais obriguem uma criança a sentar no colo do Papai Noel e nem forcem uma proximidade física se ela resistir. Isso não é falta de educação, é proteção, é dizer algo como “seu corpo é seu, ninguém toca sem seu consentimento. Seus limites importam, e eu estou aqui por você”.

Infelizmente, esta época do ano se torna atrativa para pedófilos e pouco falamos sobre isso. Empresas, shoppings e escolas que contratam pessoas para interpretar personagens natalinos precisam redobrar o cuidado. Devem orientar claramente para que não peçam que crianças sentem no colo, evitem toques desnecessários e respeitem o espaço infantil. Pode soar exagero para quem não tem filhos, mas não é. Prova disso é o caso recente em Santa Catarina, em que um idoso se aproveitou da figura do Papai Noel, justamente por envolver crianças e foi preso por abuso. Os pais e responsáveis também precisam estar atentos, presentes, observando e confiando nos instintos de seus filhos.

É claro que existem pessoas que escolhem essa missão com o coração puro, realmente interessadas em espalhar a magia do Natal de forma genuína. Essas pessoas entenderão esse cuidado. Não se sentirão ofendidas nem acharão as crianças mal-educadas por evitarem colo ou beijos, porque sabem onde está a verdadeira magia do Natal.

Quantos casos como o de Santa Catarina não existem por aí, abafados para que a magia do Natal não se quebre? Quantos não vêm à tona porque crianças não sabem identificar o abuso, ou porque se calam, envergonhadas ou com medo?

Preservar a magia do Natal é importante, tanto para as crianças, quanto para nós, adultos, que precisamos acreditar que ainda existe bondade no mundo. Mas isto jamais pode custar a segurança, a integridade e a inocência de uma criança. E protege-la, não destrói a magia, ao contrário, garante que ela continue existindo de forma saudável e verdadeira. Natal e Papai Noel devem significar amor, não imposição; alegria, não desconforto; acolhimento e, nunca medo.

Que a magia do Natal continue viva e que a inocência das nossas crianças seja sempre preservada. O melhor presente que podemos oferecer é a certeza de que estaremos ali, atentos, afetuosos e respeitosos.

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