Eu perdi meu pai cedo, mas, pensando bem, acho que todo mundo perde cedo demais.
Lá pelos meus seis anos, idade em que a gente acha que a maior tragédia do mundo é furar a bola de futebol, eu sentei no colo dele e vimos, juntos, uma fita métrica de um metro sobre sua escrivaninha.
Um metro. Sessenta minutos tem a hora, cento e poucos episódios tem uma série, mas um metro para a vida inteira?
Na minha cabeça, era pouca fita para tantas dúvidas. Lembro do medo de perder aquele colinho.
Ele apontou a marca dos sessenta e poucos e disse: “Tô aqui, já quase no fim da fita. Você é menino novo aqui embaixo, pequenininho, e ainda tem tudo isso pra viver”.
Eu, lógico, fiz a conta errada e achei que meu pai era tipo um super-herói com vidas extras, tipo videogame: acabou a fita, reaparece lá no começo e vai de novo.
Mas não. A fita dele era só uma.
A minha também.
A sua também.
Desde aquele dia, eu entendi duas coisas: gente velha não é repetitiva, é manual de instruções que insiste em ser lido. E que a vida é uma régua com prazo curto.
Porque ninguém sabe qual é o tamanho da própria fita.
Tem fita que acaba de repente, tem fita que enrola, tem fita que dobra, tem fita que você tenta esticar e dá aquele tec de elástico que rompe (“chega, meu amigo”).
E o mais curioso: quando somos jovens, estamos na marca dos 15, 20, 30, até que um dia a gente acorda, procura a marca na fita e descobre que talvez esteja nos 74,5 achando que tem 22 sobrando.
A régua não mente, mas também não avisa.
A grande ironia é que a gente vive esperando a segunda-feira, o começo do mês, o primeiro dia útil, o tal do “quando tudo estiver organizado”, como se a fita respeitasse agenda.
A fita não tá nem aí pro calendário. Ela acorda, corre, some, volta, dobra, rasga e segue adiante.
Por isso, o segredo talvez seja simples e ridiculamente óbvio: usar cada dia como a casinha dos centímetros da fita.
Ouvir mais histórias e reclamar menos dos boletos.
Olhar pra vida com aquela cara de criança que descobre coisas o tempo todo.
E aprender tudo que der com quem veio antes, porque eles sabem.
Eles SEMPRE sabem.
A verdade é que ninguém controla o tamanho da fita.
Mas dá pra escolher o que a gente mede com ela.