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Opinião

“A vida é o que acontece com a gente enquanto estamos fazendo outros planos”

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Provavelmente você já escutou essa frase e, muito provavelmente, também a associou ao eterno Beatle John Lennon, como a maioria das pessoas. Ou talvez simplesmente a repita porque é bonita, ou porque faz sentido para você. Este texto não é sobre quem escreveu ou deixou de escrever essa frase, mas, como jornalista, acredito ser importante dar os devidos créditos. Reconhecer autoria é reconhecer um trabalho antes que tudo vire um grande telefone sem fio intelectual, como vemos com frequência por aí. Antes de entrar no texto propriamente dito, preciso dizer que sou fã dos Beatles, do John Lennon, mas essa frase não é dele. Ela já foi atribuída a alguns nomes, no entanto, o registro mais antigo data de 1957, na Reader’s Digest, e tem como autor Allen Saunders, escritor, jornalista e cartunista americano, que escreveu que “a vida é o que acontece com a gente enquanto estamos fazendo outros planos”.

Não dá para ter certeza absoluta sobre a autoria, mas, contextualizada essa parte, seguimos. Há épocas em que essa frase faz mais sentido, como nos fins e inícios de ano. Estamos nos aproximando do Natal e da virada do ano, período em que muitas pessoas se sentam em frente a um computador, diante do celular ou até mesmo com uma folha em branco e uma caneta, e traçam metas para o ano seguinte, sem se dar conta de que é exatamente nesse meio-tempo que a vida acontece.

A vida não para. Nem para tomar um cafezinho ou ir ao banheiro. E, quando o ano finda, ao pegar a lista, normalmente as metas não foram cumpridas. Algumas porque não dependiam exclusivamente de nós, outras porque a vida que acontece nesses intervalos muda o curso dos planos e outras… bom, outras por falta de vontade, por falta de ação ou por acreditar que as Forças Superiores farão o trabalho sujo enquanto você, literalmente, dorme no ponto.

O mês de dezembro nos transforma em contadores de histórias mal resolvidas. Fechamos o ano cheios de promessas e metas a cumprir e, que venha 2026, com “foco”, “disciplina” e “propósito”. Janeiro é um sujeito otimista, jovem, cheio de gás. Dezembro já é mais velhaco, mais cínico, sabe que não é bem assim, mas segue o fluxo.

O ponto é que, entre um e outro, piscamos e a vida passa. E, ao chegar em mais um final de ano, percebemos que as metas ficaram para trás, que o cronograma se perdeu pelo caminho, o foco foi direcionado para outras coisas, a disciplina ficou no quartel e o propósito… bom, o propósito muda conforme a vida acontece.

Da lista que você fez no final de 2024 para este ano, quantos planos ficaram pelo caminho? Quantos mudaram de forma? Quantos deixaram de fazer sentido sem que você percebesse exatamente quando isso aconteceu? Em que momento aquele objetivo tão claro ficou perdido entre boletos, cansaço, notícias ruins e pequenas urgências diárias?

A vida acontece muito mais no mínimo do que nos fatos grandiosos. Sabe aquela festa de 15 anos que você passou o ano inteiro organizando porque era um sonho e que se foi em poucas horas? Claro que foi um momento importante e estará na memória. Mas a vida aconteceu nesses intervalos. Naquela conversa à qual você quase não prestou atenção porque estava resolvendo detalhes da decoração. No almoço apressado que passou batido porque era preciso correr para o trabalho. No corpo que deu sinais e foi ignorado, até o momento em que você foi obrigado a pensar na vida acontecendo em uma cama de hospital. No dia a dia que parecia irrelevante, afinal, havia o ano todo pela frente, mas que era exatamente onde tudo estava sendo decidido.

“A vida acontece enquanto fazemos outros planos”. Talvez essa frase choque ao ouvi-la, pois fomos ensinados a pensar o futuro como o lugar onde a vida começa. “Quando eu me formar”, “quando eu mudar de emprego”, “quando eu ganhar mais”, “quando eu tiver tempo”, “quando eu for mais resolvido”. O problema é que a vida acontece agora. Enquanto escrevo, de canto de olho vejo meus colegas trabalhando, ouço o barulho da rua, lembro que meu filho está de férias, brincando, e tenho plena consciência de que a vida está acontecendo e de que, talvez, daqui a pouco, ela deixe de acontecer.

Não estou dizendo que não devemos fazer planos. Devemos. Mas não podemos deixar de viver esperando o dia em que, talvez, quem sabe, esse plano se concretize. Ao traçarmos uma meta, precisamos trabalhar e viver nesse meio-tempo, fazendo a vida acontecer para que o plano tenha chance de se realizar.

No fim do ano, fazemos balanços sobre o que deu certo, o que deu errado e o que ficou pendente para o próximo ano. Porém, se não nos perguntarmos onde estávamos enquanto o ano acontecia, não haverá grandes mudanças.
“Estive inteiro para cumprir minhas metas e viver minha vida ou fiquei pela metade?”. Mais uma vez, não estou dizendo que não devemos nos planejar. Planejar é importante e sonhar é necessário, isso nos move, é combustível para seguir adiante. O problema é quando o futuro vira desculpa para não viver o presente.

Entender que a vida acontece enquanto fazemos planos pode ser duro, porque nos tira a sensação de controle. Percebemos que não basta querer, organizar e insistir. A própria vida também tem planos para nós. Um desvio aqui, um imprevisto ali, mudanças ao longo do caminho que alteram o curso das coisas. Às vezes é uma perda, outras, um encontro ou um reencontro. Nunca será exatamente como colocamos no papel e tudo bem.

Podemos e devemos continuar planejando. Mas, mais do que isso, precisamos ajustar o olhar para não deixar a vida passar enquanto anotamos nossas metas. Ter em mente que os dias comuns são tudo o que temos e que, ironicamente, são justamente esses dias que costumamos desperdiçar esperando algo extraordinário. Talvez seja importante lembrar que a vida não começa depois dos planos que fazemos, mas enquanto eles estão sendo feitos. Talvez devêssemos simplesmente viver enquanto fazemos nossos planos.

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