Existe um momento esquisito em alguns restaurantes: quando você percebe que, antes mesmo de escolher o prato, já recebeu um julgamento moral.
Sim, você entra, avalia as alternativas a quilo, e lá está ela: a tal placa de julgamento.
Tem aquela assim: “Sirva-se somente o que irá consumir” ou então “Pague primeiro”.
Acho uma média afronta.
Mas este restaurante em específico pegou de jeito. Em caixa alta, dizia uma ameaça passivo-agressiva:
“Caros clientes, por gentileza, não furtar os talheres. Desde já agradecemos.”
Agradecendo! Antes mesmo de você não furtar. Reforça a tese de que a ocasião faz o ladrão e que prevenção é tudo.
Fiquei tão emocionado com a confiança depositada em mim que decidi elevar a experiência.
Segurei o saleiro como quem segura um contrato e perguntei à atendente:
— Moça, licença. Eu posso delinquir e subtrair o saleiro?
Ela piscou. Piscou de novo. Depois usou aquele olhar que mescla dúvida com medo de errar na resposta.
E, mostrando rara responsabilidade corporativa, disparou:
— Vou perguntar para o gerente.
Talvez a palavra que tenha causado curto-circuito mental tenha sido “delinquir”. Talvez “subtrair”. Ou talvez a ideia de alguém pedir autorização formal para cometer furto seja um pouco demais para um expediente de terça-feira. Eu apenas quis me mostrar um potencial ladrãozinho educado.
Enquanto ela pensava, imaginei os bastidores. Algo como:
— Chefe, um cliente quer saber se pode subtrair um saleiro.
— Como assim?
— Subtrair acho que é tipo furtar, roubar, só que de forma chique.
— Ah! Não. A placa é só para intimidar, não é para liberar.
Voltou séria, profissional:
— Senhor, infelizmente não pode.
Infelizmente. Como se o problema fosse a falta de vergonha na cara.
A verdade é que a placa diz muito sobre o restaurante. Quase um manifesto filosófico. Não fala só de talheres. Fala de experiência. Fala de modelos mentais. Fala do quanto eles acreditam em você e do quanto esperam que você roube uma colher na primeira oportunidade.
No fundo, achei gentil. Ser chamado de ladrão já é desagradável. Mas ser chamado de ladrão como “caros clientes” é outra categoria.
Claro que, depois disso, almocei normalmente.
Comendo com o garfo, a faca e uma pontada de culpa que não era minha.
E avaliei: será que tem funcionado? Os furtos diminuíram?
Terminei o prato, paguei, deixei os talheres no lugar e saí.
Sem levar nada.
Nem o saleiro.
Nem o sachê de açúcar do café que, tecnicamente, é meu.
Pensei: talvez o restaurante pudesse atualizar a placa com alguma sinceridade moderna:
“Caros clientes, nós gostamos de vocês, mas não confiamos tanto assim. Por gentileza, mantenham os talheres onde os encontraram.”
Ou então abraçar de vez:
“Quer levar um talher? Fale com o gerente.
Ele já está acostumado.”
Melhor seria:
“É uma honra servir pessoas honestas.”
E assim se encerrou minha experiência: alimentado, julgado e levemente ofendido.
Serviço eficiente.
Tem cada uma.