Morávamos na Rua JB Cabral, em frente à Praça Júlio de Castilhos, no prédio do Quincas, como era conhecido na época. Era o início da nossa vida em Erechim, vindo de Porto Alegre há pouco menos de dois anos. Eu tinha 10 anos. Meus irmãos, Maurício, 9, e Leandro, 8. Foi o Natal da primeira bicicleta. E quem viveu isso sabe: não há como esquecer.
O curioso é que, normalmente, sempre sabíamos o que ganharíamos no Natal. Incomodávamos tanto os pais que o mistério não resistia. Mas naquele ano foi diferente. Minha mãe, Stela, fez um segredo impenetrável. E isso nos corroía por dentro. O que ela estaria “aprontando” para três anjinhos comportados, de boas notas, e sem qualquer pista do que nos esperava?
Por ser o mais velho, coube a mim a missão de perguntar. Tudo combinado com os outros, claro. A resposta veio sincera: pouco dinheiro, gravidez da minha irmã, foco nela. Para nós, os mais velhos, haveria apenas uma quantia “X” para gastar, cada um.
Comecei a pensar. O que pedir? Uma bicicleta era o sonho, mas o valor não fechava. Dava, no máximo, para comprar um guidão… quem sabe uma roda e dois pneus. Bicicleta inteira, impossível. Mais um ano sem pedalar. Foi então que surgiu a ideia, uma bicicleta usada.
Não existiam facilidades. Nada de internet, grupos de compra, Facebook ou WhatsApp. Era pé no barro. Olho no olho. Andar até encontrar. E não é que, faltando seis dias para o Natal, encontrei? Uma bicicleta usada, exatamente pelo valor que minha mãe havia dito que eu poderia gastar. Uma Tigrão, com banco malhado, estilizada, pneus brancos. Um luxo absoluto. Os mais antigos vão entender.
Estava extasiado. A bicicleta era real. Estava ali. Bastava pegar o dinheiro. Corri até minha mãe. E então veio o golpe mais duro: “Meu filho, não posso te dar a bicicleta. Como ficariam teus dois irmãos? ”
Foi um soco direto no queixo. Engoli seco. Fiquei chateado, claro. Mas entendi. Desde aquele dia, confesso, passei a olhar o Natal com indiferença. Algo como “tanto faz, tanto fez”. Os dias passaram. Veio a resignação. Até que chegou a véspera.
O apartamento era daqueles antigos, com corredor central e os cômodos distribuídos nas laterais. No meio dele, à esquerda, havia uma sala. Minha mãe e meu padrasto, Paulo Renato Berto (o Pai Fumaça), uma alma em pessoa, deram um jeito de nos tirar de casa. Quando voltamos, a sala estava trancada. Três crianças. Uma porta fechada. Um mistério.
Tentávamos espiar pela fechadura, mas havia um papel bloqueando qualquer visão. Foi um dia interminável. Uma tortura silenciosa. Eu não tinha a bicicleta. Não sabia o que havia naquele quarto. E a ansiedade só aumentava.
Finalmente, chegou a noite. A mais longa da história. Hora dos presentes. Minha mãe reuniu os três filhos, vendou nossos olhos, abriu a porta daquela bendita sala no meio do corredor e, para nos acalmar, deu uma laranjinha Balvedi para cada um.
Falou que o ano havia sido difícil. Que o Papai Noel viria magrinho. Que o que conseguiu comprar era apenas uma lembrança. Pediu que ficássemos encostados na parede. Retirou a venda, uma a uma. Falava com voz macia. Estava emocionada. Pediu que nos virássemos.
Naquele instante, tive certeza de que o pote de ouro no fim do arco-íris existe. A imagem que vi ali, há 45 anos, mora em mim até hoje. Viva e intacta. E acredito que também nos meus irmãos.
Três bicicletas ‘Caloi Berlineta’, novinhas, diante de nós. Eu só via as lágrimas escorrerem pelo rosto da minha mãe. Eu, Maurício e Leandro parecíamos baratas tontas. Foi um momento mágico para nós, crianças. Mas, acima de tudo, foi a tradução mais pura do espírito do Natal (e não pelos presentes). A alegria dos filhos foi a maior recompensa de uma mãe que recomeçava a vida após uma separação, com coragem, sacrifício e amor.
No dia seguinte, antes mesmo de clarear, já estávamos nas ruas de Erechim. Mais precisamente, nas calçadas da Avenida Maurício Cardoso. Foram horas e horas sobre aquelas bicicletas.
À noite, dores por todo o corpo. Mas o sorriso… esse não saía do rosto. Porque algumas bicicletas não levam apenas crianças pelas ruas. Elas carregam memórias para a vida inteira.
Não foi sobre presentes. Foi sobre entrega. Foi sobre uma mãe que decidiu não deixar que a dor definisse o futuro dos seus filhos. Sobre alguém que recolheu os próprios cacos, respirou fundo e seguiu em frente. Não porque era fácil, mas porque três pequenas vidas dependiam dela.
Foi sobre felicidade construída no cotidiano, nas pequenas vitórias, no riso arrancado em meio ao cansaço, no café simples que virava aconchego, no abraço que curava mais do que qualquer palavra. Uma felicidade que não vinha embrulhada, mas era feita à mão, dia após dia. Foi sobre amor, daquele amor que não faz alarde, mas sustenta.
Essa mãe fez do pouco, muito. Fez da casa, lar. Fez do colo, porto seguro. E fez da própria história um exemplo silencioso de resistência e ternura. Porque, no fim, não era sobre o que se podia dar. Era sobre estar. Era sobre amar sem medidas. Ela disse que não podia. E fez acontecer!