Nós e o Natal
Falar de Natal é muito gratificante para qualquer um de nós que nascemos, crescemos e o comemoramos todos os anos. O Natal do Menino Deus, nascido em uma manjedoura, em Belém de Judá, é uma tradição que está em nossos corações. Para as crianças, Natal é sinônimo de presente, de brinquedo, da bicicleta e da ceia farta, à noite, junto do presépio do Menino Jesus ou da Árvore de Natal toda enfeitada e iluminada. Para nós, adultos, é tudo acrescido das dificuldades que encontramos no nosso dia a dia para vencer os obstáculos oriundos da situação que não criamos, mas da qual somos obrigados a participar para ajudar a resolver.
Natal dos meus tempos de criança
O pinheiro de Natal: já nos primeiros dias de dezembro, minha mãe Thereza, uma grande entusiasta do Natal, comandava a confecção do mesmo. Na Avenida Sete de Setembro, em Erechim, uma senhora plantava pinheiros que vendia na época do Natal. A escolha era pela beleza e pelo bom porte. Chegava em casa pelo carrinho de mão. Minha mãe, em um grande vaso, colocava algumas pedras e areia úmida para firmar a árvore. Depois, a mesma era colocada em um dos lados da sala de estar. O pinheiro chegava quase ao teto. Chumaços de algodão eram colocados nas pontas para fazer de conta que era neve.
Bolas de vidro colorido eram penduradas com cordões. Havia, aqui em Erechim, a Casa de Comércio do Sr. Max Heldwein, defronte ao Clube Atlântico, que vendia de tudo. Lá comprávamos enfeites natalinos: bolas, cordões prateados e dourados. A iluminação era com pequenos candeeiros de metal, com pegadores parecidos com os de prender roupas no varal, colocados nas pontas do pinheiro. Neles eram colocadas pequenas velas coloridas para serem acesas na noite de Natal. No topo da árvore, uma bela estrela dourada.
Presépio: era montado embaixo da árvore. Papelão com pinceladas de tinta, ao redor, imitava as montanhas. No chão, outro papelão pintado imitava a gruta, o gramado e a neve. Em um dos cantos, um pedaço de espelho imitava um lago com alguns patinhos. A manjedoura, no centro, com o Menino, Maria e José; o burrinho e a vaquinha atrás, aquecendo Jesus. Os pastores vinham chegando com suas ovelhas. Entre as figuras eram colocados a “barba-de-bode” e musgos verdes secos. No alto da gruta, o anjo: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Os Reis Magos, com seus camelos e presentes, eram colocados somente no dia 6 de janeiro, Dia da Epifania. Meus pais comandavam as preces diante do presépio à noite, todos de joelhos, antes de dormir. Ficávamos horas admirando a cena da árvore e do presépio. Meus dois irmãos, menores, gostavam de mexer as figuras, colocando-as em fila ou misturando tudo.
Hoje, quando relembro, as lágrimas surgem de saudades. Como o Natal marcou a nossa infância e a nossa vida! Sua simplicidade, devoção e união da família!
Decoração: desde os primeiros dias de dezembro, na porta de entrada era colocada uma coroa feita com galhos de cipreste, um laço vermelho e algumas bolas natalinas coloridas. Minha mãe amava bordar, e sobre móveis e mesas havia toalhas bordadas com motivos natalinos. Folhagens que ela plantava eram colocadas pela casa, tudo em um clima festivo, de alegria. As cortinas eram presas com laços coloridos. Minha mãe Thereza costurava nossas roupas para o Natal. Ela era muito elegante, sempre arrumada e com os vestidos que ela mesma confeccionava. No Natal, todos usavam roupas novas. Era uma tradição que vinha de longe. Em um Natal, quando ganhei uma boneca com carinha de porcelana, ela estava vestida com o mesmo modelo do meu vestido natalino. Obra da minha mãe.
Os doces natalinos: pela metade do mês de dezembro, iniciava o preparo das bolachas de Natal. Tínhamos, por tradição, uma receita de “bolachas de mel” alemã. A massa era preparada e ficava por três dias macerando. O bom e puro mel exalava o perfume de Natal que vinha da grande bacia de ágata coberta. Meus dois irmãos e eu ajudávamos a recortar a massa com motivos natalinos. Depois de assadas, eram cobertas com glacê branco e decoradas com confeitos coloridos. Lógico que meus irmãos levavam tudo na brincadeira, mas ajudavam. Somente as podíamos experimentar, pois elas desapareciam guardadas em latas ou vidros bem fechados. Os primos que chegavam no Dia de Natal escolhiam as figuras das bolachas que ganhavam. Algumas estavam penduradas na árvore.
Véspera de Natal: pela manhã cedo, minha mãe preparava deliciosas cucas que eram assadas no forno a lenha. Eram para o chá da tarde do Dia de Natal, com os parentes e “compadres” que aparecessem. Na véspera, o jantar era simples, pois o mais importante era o almoço de Natal. Nesse tempo, não era comum a figura do Papai Noel, era o Menino Jesus que deixava os presentes junto à Árvore de Natal. Meus pais, às vinte e três horas, iam para a Missa do Galo, oficiada na nossa antiga e bela Igreja Matriz. A missa ainda era em latim, mas era aconchegante e plena de devoção. O Coral da Igreja São José era de muitas vozes, acompanhadas pelo órgão, no coro da igreja. As crianças não os acompanhavam. Íamos dormir cedo para não ver o Menino Jesus chegar com os presentes.
Dia de Natal: já maior, eu acompanhava meus pais na missa solene da manhã, na Matriz. Era o momento em que aprendi a dar graças à vida. O almoço já era mais festivo. Não existia a tradição do peru, mas um belo frango recheado e assado no forno tomava o seu lugar. A tarde era o momento do café com cucas, bolachas e broas. Alegria ao redor da mesa com parentes e amigos. Hoje, uma loucura quase agressiva tomou conta do mês natalino e levou-o para tão longe do que já foi outrora, o bucólico dezembro dos meus natais de criança.
Doces lembranças! Um Feliz e Abençoado Natal!