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Saúde

Gratidão transforma mente e emoções, apontam ciência e espiritualidade

Estudos em psicologia e neurociência mostram que o sentimento vai além da fé religiosa e promove equilíbrio emocional, saúde mental e qualidade de vida

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A neurociência tem mostrado que emoções positivas promovem mudanças significativas no funcionamento
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Divulgação

Na visão espírita, a gratidão é compreendida como uma virtude essencial para a evolução do espírito, capaz de elevar pensamentos e sentimentos. Mas, para além da espiritualidade, a psicologia e a neurociência também têm se debruçado sobre esse tema e apontado impactos concretos desse sentimento no equilíbrio emocional e na saúde mental.

Segundo a psicóloga Aline Mezalira, o avanço das pesquisas nas últimas décadas ajudou a consolidar esse entendimento. “Nos últimos 30 anos, os estudos em neurociência e psicologia avançaram consideravelmente, dada a relevância que os processos emocionais têm na qualidade de vida das pessoas”, afirma. De acordo com ela, “o sentimento de gratidão ativa no cérebro áreas de recompensa que geram maior sensação de felicidade, aumento da autoestima e redução dos níveis de estresse, impactando diretamente a saúde emocional”.

Gratidão além da religião

Frequentemente associada apenas à religião ou à espiritualidade, a gratidão também pode ser compreendida como uma experiência humana universal. Aline ressalta que esse sentimento não depende necessariamente de uma crença espiritual para gerar benefícios. “A gratidão, embora muito abordada e incentivada por vertentes religiosas ou espiritualistas, de forma alguma se limita ao escopo religioso”, explica.

Para a psicóloga, pessoas sem religião podem vivenciar esse sentimento de forma ainda mais profunda. “Gratidão é um sentimento de apreço e reconhecimento pelas coisas boas da vida. Uma pessoa que não professa nenhuma fé, mas valoriza a vida e os processos emocionais, pode ser muito mais grata e sentir mais benefícios, do que alguém que pratica a gratidão de forma automática, sem reflexão”, observa.

O que acontece no cérebro quando somos gratos

A neurociência tem mostrado que emoções positivas promovem mudanças significativas no funcionamento cerebral. Estudos com exames de ressonância magnética indicam que, ao sentir gratidão, ocorre “aumento da atividade do córtex pré-frontal, maior ativação do hipotálamo e do sistema dopaminérgico”, explica Aline.

Essas alterações impactam tanto o corpo quanto a mente. Entre os benefícios físicos estão melhora do sono, fortalecimento do sistema imunológico e maior motivação para atividades físicas. No campo emocional, destacam-se “mais tranquilidade, relaxamento, melhor regulação emocional, redução do estresse e potencialização das relações sociais”, afirma a psicóloga.

Por que é tão difícil agradecer hoje em dia?

Em um cotidiano marcado pela pressa, pelas comparações constantes e pela sensação de insatisfação, reconhecer o que já se tem se tornou um desafio. Aline explica esse fenômeno a partir de três tipos de gratidão.

“A gratidão automática é aquela mais social, dita ‘de boca pra fora’. Já a gratidão passiva surge em momentos pontuais de grande emoção, como o nascimento de um filho ou uma conquista importante”, detalha. Existe ainda a gratidão ativa, considerada a mais profunda. “Ela envolve escolha, investimento de energia e um esforço cotidiano para valorizar o que se tem”, afirma.

Segundo a psicóloga, os dois primeiros tipos são mais comuns por não exigirem reflexão. “A gratidão ativa, por outro lado, exige investimento emocional, cognitivo e comportamental e nem todos estão dispostos a exercitar isso”, completa.

Gratidão como ferramenta terapêutica

Do ponto de vista clínico, exercícios simples de gratidão podem auxiliar no tratamento de ansiedade, depressão e estresse. Aline destaca que o principal efeito está na mudança de perspectiva. “Ao invés de focar na falta e na reclamação, a pessoa passa a olhar para o que já possui e conquistou”, explica.

Ela alerta que a repetição constante de queixas reforça padrões negativos no cérebro. “Se eu invisto energia na reclamação, entro num ciclo vicioso. É preciso transformar o olhar para falar e vibrar sobre o que é bom, para conseguir enxergar as benesses que já existem na vida”, salienta.

Espiritismo e regulação emocional

A doutrina espírita aborda a responsabilidade emocional e a influência dos pensamentos no campo energético. Para Aline, há pontos de convergência com a psicologia moderna. “A regulação emocional é a habilidade de reconhecer, aceitar e usar as emoções de forma saudável, e isso pode ser desenvolvido com autoconhecimento e terapia, sem necessariamente recorrer à religião”, explica.

No entanto, ela reconhece a contribuição espiritual. “É inegável que o espiritismo incentiva uma conexão com nossa essência, promovendo autoconhecimento, gestão dos estados internos e a chamada reforma íntima”, pontua.

Símbolo ou oportunidade?

Datas como o Dia da Gratidão, em 6 de janeiro, e o Dia Internacional do Obrigado, em 11 de janeiro, podem gerar reflexões, mas também correm o risco de se tornarem apenas simbólicas. Para Aline, o impacto depende da postura individual. “Para quem já pratica a gratidão de forma ativa, essas datas reforçam a importância do sentimento. Para outros, podem parecer apenas convenções sociais”, avalia.

Ela sugere que o aprofundamento vem do estudo e da reflexão. “Buscar conhecer melhor a temática e, para quem se identifica, até se espiritualizar pode dar mais sentido a essas práticas”, afirma.

Começar 2026 com mais equilíbrio emocional

Para quem deseja iniciar o próximo ano com mais saúde emocional, Aline deixa um conselho prático. “Tente exercitar a gratidão ativa. Aquela que olha para além da falta, das dificuldades e do que está indo mal”, recomenda.

Segundo ela, reconhecer que coisas boas coexistem com os desafios é essencial. “Há o que já construímos, o que já conquistamos e o que já superamos. Olhar para isso e agradecer, não de forma vazia, mas com contentamento e contemplação, nos ajuda a entender que a vida é um verdadeiro presente”, conclui.

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