A violência contra a mulher, na maioria das vezes, não começa com agressões físicas, ela se constrói de forma gradual, atravessando dimensões psicológicas, emocionais e culturais que impactam diretamente a saúde mental das vítimas. Esse foi um dos principais pontos destacados por profissionais que atuam diretamente com mulheres em situação de violência e com homens autores de agressão na região de Erechim.
Segundo a psicóloga clínica Kátia Renata Dick, voluntária nos grupos reflexivos de gênero do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSC), a violência é um fenômeno estrutural e cultural. “A violência contra as mulheres é muito mais ampla do que a gente está acostumado a ver ou a comentar. Ela é uma questão cultural, está intrínseca na nossa sociedade e funciona como um ciclo”, afirma.
A escalada da violência e seus efeitos invisíveis
A advogada Dra. Joana Mattia, doutora em Direito e coordenadora de políticas públicas para mulheres em Erechim, explica que a agressão física costuma ser o último estágio de um processo mais longo. “São casos muito esporádicos que a gente não tem nenhum tipo de violência que acomete aquele relacionamento e a primeira será a violência física”, destaca.
Antes disso, a mulher geralmente já está submetida a violências psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais, muitas vezes naturalizadas no cotidiano. Para a psicóloga, nenhum relacionamento começa violento, as relações abusivas costumam iniciar com afeto e acolhimento, mas, aos poucos, o equilíbrio se rompe, dando lugar ao controle, à desvalorização e ao medo.
Impactos psicológicos
Do ponto de vista da saúde mental, os danos da violência são profundos e duradouros e um dos primeiros impactos, segundo Kátia, é a perda da identidade. “Existe um descolamento dessa mulher enquanto pessoa”, explica. Aos poucos, ela deixa de expressar vontades próprias, passa a duvidar das próprias capacidades e sente necessidade constante de validação do parceiro.
A psicóloga alerta que essa insegurança contínua é um sinal importante de violência psicológica, pois “ela começa a não se achar capaz de realizar coisas que ela conseguia antes sozinha”. Com o tempo, a vida da mulher passa a girar exclusivamente em torno do companheiro, enquanto seus desejos, projetos e relações sociais são abandonados.
Por que é tão difícil sair de um relacionamento abusivo?
A permanência em relações violentas não pode ser explicada de forma simplista. “A violência é um ciclo. Não é simples ‘só largar’”, enfatiza Kátia. A mulher geralmente está emocionalmente fragilizada, sente vergonha, medo do julgamento social e, muitas vezes, depende afetiva ou financeiramente do agressor.
Além disso, fatores culturais aprendidos desde a infância contribuem para a normalização da violência. “Uma mulher que cresceu em um ambiente violento pode passar a entender a agressão como um ato de amor ou cuidado”, explica a psicóloga. Esse entendimento distorcido faz com que comportamentos abusivos sejam tolerados por longos períodos.
Crises, convivência intensa e aumento do estresse
Situações de crise, como desastres naturais, feriados prolongados ou eventos traumáticos, tendem a intensificar conflitos já existentes. A psicóloga explica que o aumento do tempo de convivência, sem espaços de respiro emocional, eleva os níveis de estresse e pode funcionar como gatilho para agressões. “Essas questões traumáticas fazem com que o pico de estresse entre diretamente nas relações e isso vai tomando uma proporção que, de repente, não tem mais como controlar”.
A advogada complementa que crises materiais e emocionais podem exacerbar frustrações, especialmente quando ainda prevalece a ideia cultural do homem como provedor.
O papel do acolhimento e da rede de apoio
O rompimento do ciclo de violência passa, necessariamente, pelo acolhimento, por isso, Kátia reforça que familiares e amigos devem observar mudanças sutis de comportamento, como isolamento social, tristeza constante ou justificativas frequentes para ausências. A abordagem, porém, deve ser cuidadosa. “Não é inquirir ou acusar, é chegar e dizer: “Tu tá bem? Vamos tomar um café?””, orienta.
Dra. Joana destaca que reconhecer a violência é o primeiro passo para buscar ajuda, pois “no momento em que surge a dúvida se o relacionamento é saudável, essa dúvida já demanda atenção”. Procurar profissionais da saúde, da assistência social ou serviços públicos especializados pode ser decisivo para interromper o ciclo.
Educação e prevenção como caminhos para a mudança
Tanto a psicóloga quanto a advogada concordam que o enfrentamento da violência contra a mulher não se limita à resposta após a agressão, ele passa por educação, conscientização e mudança cultural. “A violência começa muito antes do que a gente imagina”, lembra Kátia, ao citar distinções de gênero ensinadas desde a infância.
Falar sobre o tema, romper o silêncio e gerar desconforto social são estratégias fundamentais, tendo em vista que “esse desconforto tem que ser social, não só de quem atende vítimas ou agressores”, defende a psicóloga.
Os números da violência no Estado
Apesar de uma leve redução nos registros, os dados oficiais mostram que a violência contra a mulher segue sendo uma realidade preocupante. No Rio Grande do Sul, em 2025, foram registrados mais de 47,5 mil casos envolvendo ameaças, estupros, lesões corporais e feminicídios tentados ou consumados.
Em Erechim, nos anos de 2024 e 2025, não houve feminicídios consumados, mas foram registrados dois casos de feminicídio tentado. As ameaças passaram de 480 registros em 2024 para 418 em 2025; os estupros, de 26 para 25 casos; e as lesões corporais caíram de 262 para 241 registros.
Apesar dos números terem diminuído e, isso deve sim ser levado em conta, não é possível dizer que foi uma queda significativa, além do mais, a Dra. Joana lembra que esses números não refletem a totalidade dos casos, devido à subnotificação, especialmente em situações que ocorrem dentro do ambiente familiar. “Então esses fatores, por vezes, também são impeditivos ou até empecilhos para que essas mulheres busquem os órgãos de proteção e de segurança em um primeiro momento”, conclui a advogada.
Onde denunciar violência de gênero
Brigada Militar – 190
Para situações de emergência ou risco imediato.
Polícia Civil / Delegacia de Polícia
Para registrar o boletim de ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência.
Delegacia Online do Rio Grande do Sul
Permite o registro de ocorrência em casos de violência doméstica e familiar (quando a mulher tem acesso à internet e à senha GOV).
Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180
Canal nacional, gratuito e 24h, que orienta, acolhe e encaminha para a rede de proteção local.
Onde procurar ajuda e acolhimento
CRAM – Centro de Referência em Atendimento à Mulher (Erechim)
Atendimento psicológico e social.
Rua Benjamin Mosena, 181, fundos - Bairro Bela Vista
Pode ser acessado por demanda espontânea, sem encaminhamento.
Serviços de Saúde
UPA, postos de saúde, hospitais, psicólogos e enfermeiras podem acolher e encaminhar a mulher para a rede de proteção.
Defensoria Pública
Para orientação jurídica gratuita.
Ministério Público e Judiciário
Atuam na garantia das medidas protetivas e responsabilização do agressor.
Patrulha Maria da Penha
Faz o acompanhamento e fiscalização do cumprimento das medidas protetivas.
CEJUSC (Centro Judiciário de Solução de Conflitos)
Atua, entre outras frentes, com grupos reflexivos, inclusive com homens autores de violência, para reduzir a reincidência.