Após mais de 50 dias desde o temporal de granizo que atingiu Erechim, o trabalho de reconstrução segue intenso. Durante os percursos pela cidade, tornou-se comum avistar pessoas trabalhando nos telhados, carros embrulhados em plásticos e entulhos pelo caminho.
Neste cenário, que há pouco tempo foi de destruição, evidencia-se a capacidade de recomeçar em comunidade. Para Gabriel Manchini de Carvalho, sócio proprietário da empresa Carvalho Materiais de Construção e Acabamentos, a situação exigiu muito mais do que profissionalismo, mas reivindicou empatia. “Muitas famílias chegaram até nós fragilizadas, algumas sem saber por onde começar. Nosso papel foi, além de fornecer material, orientar, acalmar e ajudar a encontrar soluções viáveis dentro da realidade de cada um”.
Gabriel conta que, no dia do temporal, mesmo com a loja alagada, sem energia elétrica e com dois depósitos atingidos, a empresa decidiu abrir as portas para a comunidade. “Sabíamos que muitas pessoas estavam sem qualquer proteção em casa e que o mais importante naquele momento não era vender, mas amparar. Distribuímos entre 40 e 70 m² de lona por pessoa, atendendo das 17h até a meia-noite, apenas anotando nome e telefone. Tínhamos consciência de que parte desses valores talvez nunca fosse recebida, mas isso não foi um impeditivo. A decisão foi simples: ajudar primeiro, resolver depois. Essa sempre foi a forma da Carvalho agir em Erechim ao longo dos seus 37 anos de história”, completa.
Diante de situações de urgência extrema, com casas totalmente descobertas e veículos destruídos, os danos materiais quase ficaram em segundo plano ao considerar as questões emocionais e psicológicas. O medo tomou conta da população e a possibilidade de novas chuvas se tornou um inimigo comum. Entre tantas adversidades, recomeçar demonstrou ser um desafio compartilhado.
Resiliência em ação
O empresário Gleison Lemos dos Santos, que atua há 12 anos no ramo de prestação de serviços, destaca que a procura por mão de obra para reparos e telhamento segue intensa. “Desde o temporal de granizo até agora, temos trabalhado direto, de segunda a segunda. Tem muita gente esperando, temos agendamentos previstos até março, não dá para pegar mais nada”, explica.
Quando questionado sobre a fase atual, Gleison afirma que é possível identificar avanços significativos. “Tem avançado bastante, sei que há muitos profissionais atuando, porém creio que os trabalhos devem seguir até a metade deste ano. Muitas casas ainda estão com lona e, claro, tem a questão do custo. Há relatos de prestadores de serviço que aumentaram os valores, muita gente se aproveitou desse episódio para lucrar um pouco a mais”, conta.
Unindo esforços
Como diz o ditado, “a união faz a força” e, assim, esforços de outros estados também têm se somado aos trabalhos de reconstrução da cidade. Exemplo disso é Mateus Pereira Pimentel, de São José dos Campos, São Paulo, técnico em martelinho de ouro que chegou em Erechim ainda no fim de novembro. “A demanda tem sido grande desde que chegamos aqui, pois foram muitos carros atingidos e afetados”, relata.
O profissional explica que a técnica de martelinho de ouro consiste em um processo de recuperação da chapa automotiva, de forma totalmente artesanal, e que busca desamassar e corrigir sem danificar a pintura original, preservando assim a originalidade do veículo.
Ao ser abordado sobre situações envolvendo danos por conta de granizo, Mateus lembra de experiência semelhante que presenciou em terras “hermanas”. “Vivenciei algo parecido na Argentina, em 2025, porém os carros de lá foram atingidos em uma proporção menor que os daqui de Erechim”, conta.
Todos por todos
“Estendemos horários, trabalhamos sem fechar ao meio-dia e direcionamos toda a logística, caminhões e equipe para atender a demanda de telhas e coberturas. Houve, sim, sobrecarga operacional e emocional, inclusive com colaboradores que também estavam com suas casas danificadas, mas que ainda assim priorizaram o atendimento à comunidade”, completa Gabriel Manchini de Carvalho.
Com o tempo, já é possível identificar os indícios do recomeço. Nos bastidores desse cenário de reconstrução, o trabalho de milhares de pessoas que, juntas, representam a força da resistência e a esperança de que dias melhores virão.