Lá vai o “louco”!… Olha o “louco”!
Cuidado, ele é “louco”!
Olha o “louco” e seu cachorro!
Não mexam com ele!
O cachorro não deixa; também é louco.
“Louco”, “Louco”, Olha o “louuucoo”…!
É o que eu mais ouço.
Tento explicar que sou um ser normal.
Gesticulo, esbravejo; sou eloquente.
Canto, dou gargalhadas; choro; lamento.
Ninguém me entende. Dizem: é um demente!…
Não sou criminoso. Não tenho maldade.
Falo, falo; não me entendem.
Fico ansioso. Saio a caminhar…
Ando por praças ruas e templos.
Faço discursos inflamados;
Só os pássaros e meu cachorro me compreendem.
Sempre tenho uma flor nas mãos
Digo que é preciso cuidar da natureza e dos animais.
As pessoas passam apressadas
Esbarram em mim, zombando-me;
Só umas crianças inocentes me ouvem e nada mais.
Foi o tempo. Estamos no “outro mundo”
Estamos na “fila”: céu ou inferno.
Meu cachorro está nervoso e inquieto
Cheira… cheira, mostra muita revolta,
Aproxima-se de um homem,
Este, elegante, luxuoso, vestindo um “fino terno”.
Uma voz doce e divina, fala:
— Este senhor maltrapilho e seu cachorro venham a mim.
— Mas como pode isso!?… interroga o homem bem vestido,
— Ele é um “louco” e o cachorro é um animal!
— Pode sim! Como não!? Animal tem alma sim!
Este cachorro que abandonaste, lembras?
Foi numa noite de chuva e frio.
Lembras que sem piedade nele bateu?
Este que tu chamas de louco
Foi quem com carinho o acolheu.
E agora, a verdade: ESTE LOUCO TAMBÉM ERA EU…
P.S.: Escrevi a palavra louco entre aspas (“) para demonstrar que o personagem central desta poesia, não é o louco na verdadeira acepção da palavra, mas sim aquele ser puro, alegre, sem maldade, inteligente, na maioria das vezes mal vestido e incompreendido, que perambula pelas ruas, e que, muitas vezes, é motivo de zombaria…