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Opinião

O Castelinho e a responsabilidade de lembrar

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Natan Fantin
Por Natan Fantin - Professor do Ensino Básico e Escritor

Há lugares que sustentam uma cidade mesmo quando parecem abandonados, mesmo atravessados diariamente por olhares distraídos, permanecem ali. Como um galpão antigo no interior ou uma árvore antiga que segue dando sombra muito depois de quem a plantou. O Castelinho é um desses lugares.

No dia 26 de janeiro de 2026, Erechim anunciou a destinação de mais de seis milhões e quinhentos mil reais para o restauro integral do Castelinho, recurso viabilizado pelo Ministério Público Estadual. A obra, prevista para os próximos dois anos, devolverá ao prédio suas condições estruturais, respeitando sua forma, seus materiais e sua história. Mas restaurar o Castelinho é mais do que recuperar um edifício. É um gesto de cuidado com o tempo, com a história local e com as gerações que ainda virão.

Construído entre 1912 e 1915, o Castelinho acompanhou o nascimento da cidade. Ali, decisões foram tomadas, registros lavrados, caminhos definidos. Foi naquele espaço que Erechim começou a se reconhecer como cidade. Desde então, o prédio permaneceu ali, atravessando décadas, observando transformações, guardando marcas de um início que não pode ser repetido, mas pode ser cultivado.

Há uma antiga intuição que atravessa gerações: a sociedade é uma comunidade de almas que reúne os mortos, os vivos e os que ainda não nasceram. Quando uma cidade decide preservar um de seus lugares fundadores, ela reconhece exatamente isso, que vive entre heranças recebidas e responsabilidades futuras. Toda comunidade vive entre o que lembra e o que esquece. O esquecimento, muitas vezes, não é uma escolha consciente, acontece quando deixamos de lembrar… de cuidar. Quando um prédio histórico se deteriora, não é só a madeira que cede, é o vínculo entre gerações que se enfraquece, como uma cerca abandonada que deixa o campo perder seus contornos.

Preservar o Castelinho é afirmar que a cidade não se reduz ao ritmo corrido do dia a dia. É reconhecer que o chão onde hoje se pisa foi preparado por outros e que também será herdado por quem continua chegando por estas paragens. Especialmente por aqueles que crescem no século XXI e precisam aprender que o mundo é a história não nasceu com eles, que o chão que pisam já foi revolvido, sulcado e preparado por outros. A história ganha sentido quando é transmitida como experiência, não apenas como informação. Quando os espaços continuam de pé, a memória deixa de ser abstrata e se torna algo que se vê, se percorre, se pergunta. Um prédio restaurado ensina sem discursos: mostra que houve um antes e que esse antes importa, mesmo com todas as suas ambiguidades.

A escolha do restauro transforma o agora em testemunho. Nos torna, como cidadãos, responsáveis por lembrar. Também permite que, amanhã, alguém compreenda que houve um tempo em que a cidade escolheu cuidar do que recebeu, em vez de deixar perder. Nem tudo pode ser preservado. Mas aquilo que sustenta as identidades de um lugar exige atenção, constância e compromisso. Cidades que cuidam do próprio chão sabem um pouco melhor para onde estão indo.

Contato: https://lauramocelin.com/

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