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Opinião

A aposentadoria em constante fuga

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Rodrigo Finardi
Por Rodrigo Finardi -jornalista

Tenho 55 anos e, há alguns anos busco preparar minha aposentadoria. Não se trata de parar de trabalhar, mas de garantir que, quando a idade chegar, haja rendimentos minimamente dignos para enfrentar as necessidades que o tempo de vida impõe (saúde, moradia, alimentação e cuidado).

Quando completar 58 anos, terei 35 anos de contribuição ao INSS. Ainda assim, pelas regras atuais, terei de recolher por mais sete anos para ter direito ao benefício apenas aos 65. É um dado que, por si só, já revela uma contradição: décadas de contribuição não são mais suficientes para assegurar uma aposentadoria imediata.

E o problema não se encerra aí. Com o aumento da expectativa de vida e a instabilidade das regras previdenciárias, o trabalhador vive sob permanente insegurança. A cada novo ciclo econômico ou político, surge o fantasma de mais uma Reforma da Previdência. Isso obriga quem ainda está na ativa a recalcular rotas, buscar alternativas e desconfiar se, de fato, aquilo que hoje é prometido será honrado amanhã.

Durante muito tempo, a Previdência Social foi superavitária. Havia muito mais pessoas trabalhando e contribuindo do que recebendo benefícios. Esse cenário, porém, mudou de forma acelerada com a transformação da pirâmide populacional brasileira.

O envelhecimento da população e o crescimento do número de aposentados indicam que o sistema previdenciário poderá ter mais beneficiários do que contribuintes a partir de 2051. Se as projeções se confirmarem, até 2060 o Brasil deve dobrar o número de aposentados, alcançando cerca de 66,4 milhões de pessoas. A relação entre contribuintes e beneficiários, que em 2022 era de 1,97 para cada aposentado, pode cair para apenas 0,86 em 2060, um cenário que pressiona fortemente as contas públicas.

Embora o número absoluto de trabalhadores seja maior, o verdadeiro desafio está na relação entre quem contribui e quem recebe. Em muitas cidades brasileiras, especialmente no interior, já há mais aposentados do que trabalhadores formais. Isso expõe uma realidade ignorada em muitos discursos oficiais: a previdência não colapsa apenas pelo envelhecimento, mas também pela precarização do trabalho.

O Brasil possui uma força de trabalho ativa expressiva, porém marcada por uma elevada taxa de informalidade. A população ocupada é numerosa, mas o sistema previdenciário enfrenta dificuldades crônicas de financiamento porque 54,3% dos trabalhadores não contribuem.

Os números do próprio governo reforçam o problema. Em 2024, segundo o Boletim da Previdência Social, o valor médio do benefício foi de R$ 1.847,13. Na área urbana, a média ficou em R$ 1.930,15; nas áreas rurais, apenas R$ 1.413,68. São valores que mal acompanham o custo de vida, sobretudo em um país onde alimentos, medicamentos e serviços essenciais sobem acima da inflação oficial.

O Governo Federal injeta mais de R$ 70 bilhões por ano na economia, mas esse montante, quando pulverizado entre milhões de beneficiários, revela-se insuficiente para garantir uma velhice digna. O resultado é previsível: aposentados recorrem cada vez mais ao sistema público de saúde, assistência social e programas complementares, não por opção, mas porque a renda previdenciária não cobre necessidades básicas.

Nesse contexto, a Previdência Social deixa de ser apenas um mecanismo de proteção e passa a funcionar como um sistema de sobrevivência mínima. O discurso de equilíbrio fiscal, frequentemente usado para justificar cortes e endurecimento das regras, ignora o impacto humano dessas decisões. Reformas sucessivas transferem o peso do ajuste para quem trabalha, contribui por décadas e, ao final, recebe benefícios insuficientes para viver com autonomia.

A pergunta que permanece é incômoda, mas necessária: até quando o trabalhador brasileiro será chamado a “contribuir mais e receber menos”, sem que se enfrente, de fato, a informalidade, a sonegação e a desigualdade estrutural do mercado de trabalho?

Preparar a aposentadoria, hoje, não é apenas um planejamento financeiro. É um exercício constante de resistência diante de um sistema que parece empurrar a dignidade sempre alguns anos mais adiante.

 

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