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Saúde

Câmeras, cérebro e julgamento social na era da superexposição

Especialista explica como fatores biológicos, psicológicos e sociais influenciam a reação de quem sabe que está sendo filmado

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Entre câmera e cérebro, não há inimigo, há apenas experiências, emoções e significados que moldam a
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Marcelo V. Chinazzo

A popularização das redes sociais e a constante exposição a câmeras nos fazem pensar como o cérebro reage à ideia de estar sendo filmado e, mais do que isso, saber que aquela imagem ficará registrada e sujeita a julgamentos. Para a psicóloga Juliana Jaboinski, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental e professora de Psicologia na URI, a resposta passa por fatores biológicos, psicológicos e sociais.

A câmera não é a ameaça, mas pode representa-la

De acordo com Juliana, o cérebro humano, por ser um aparato biológico antigo, não possui mecanismos específicos para reagir a câmeras. “Então, a câmera em si, não nos amedronta, mas a possibilidade de ser observado, avaliado e de que aquilo permaneça ali, pode ser sim ameaçadora a depender de uma série de variáveis”.

O objeto em si não é perigoso, no entanto, o que ele simboliza, julgamento, avaliação e permanência do registro, pode ativar respostas emocionais intensas, especialmente em pessoas com insegurança elevada, autocrítica acentuada ou transtorno de ansiedade social.

A diferença entre ser observado momentaneamente e ter a imagem gravada também pesa, pois para quem teme avaliações negativas, saber que o conteúdo ficará disponível por tempo indeterminado pode ser extremamente aversivo.

As variáveis psicológicas, biológicas e sociais

A reação à filmagem depende de múltiplos fatores, entre eles, aspectos psicológicos como autocrítica e insegurança; fatores biológicos, como predisposições temperamentais; e elementos contextuais, como experiências de vida.

Vivências de crítica excessiva, invalidação emocional ou bullying, sobretudo na infância, podem influenciar diretamente a forma como a pessoa encara situações de exposição, das variáveis biopsicossociais que também vão impactar a relação com o objeto e com essa questão de ser filmado, de aquilo ser documentado e de a pessoa ser avaliada.

O que acontece no cérebro em situações de ameaça?

Quando a exposição é percebida como perigosa, áreas cerebrais ligadas ao medo podem ser ativadas. “Se é uma pessoa que tem grandes questões com julgamento social, aquilo pode ser extremamente aversivo e ela pode não conseguir fazer mesmo”, coloca Juliana.

Em termos neurobiológicos, a amígdala e o hipocampo, estruturas ligadas ao processamento do medo, podem ser acionadas avisando que a pessoa está em perigo e deve fugir e nesse cenário, a pessoa pode enfrentar, paralisar ou evitar completamente a situação.

Por outro lado, quando a exposição é associada a algo positivo, como falar sobre um tema que domina e aprecia, a resposta cerebral tende a ser diferente, com maior ativação de circuitos ligados à motivação e à recompensa, como os dopaminérgicos.

Quando o medo se torna transtorno

Em níveis mais intensos, o medo de exposição pode configurar transtorno de ansiedade social, também conhecido como fobia social. Nesses casos, a antecipação de cenários catastróficos leva à evitação constante e isso pode impactar diretamente a vida acadêmica e profissional da pessoa, que deixa de aproveitar oportunidades por receio do julgamento alheio.

O tratamento

Na abordagem cognitivo-comportamental, a evitação não é o caminho recomendado, o tratamento envolve exposição gradual e planejada às situações temidas. Um exemplo é o estudante que precisa apresentar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), mas evitou apresentações ao longo da graduação, nesse caso, o terapeuta trabalha pensamentos antecipatórios, percepção de perigo e estratégias de enfrentamento.

“A nível cognitivo e a nível comportamental, o psicólogo pode dizer para ela se imaginar lá naquela situação, para que ela treine no consultório, para que ela ensaie com a orientadora, para que ela ensaie com a família, com uma amiga. Uma exposição aos poucos até que ela consiga se sentir minimamente apta a realizar a tarefa”, explica Juliana, que reforça que a exposição precisa ser planejada, pois é preciso muito cuidado nesse processo.

“É por isso que na terapia a gente vai planejando essa exposição de uma forma gradual e isso tem uma razão neurobiológica”, salienta. A neurobiologia e a neurociência explicam essa técnica, que é um processo em que, com a repetição, os neurônios deixam de responder com a mesma intensidade ao estímulo antes considerado ameaçador.

A importância evolutiva de se importar com o julgamento

Do ponto de vista evolucionista, preocupar-se com a opinião dos outros foi fundamental para a sobrevivência da espécie. Juliana esclarece que “o cérebro evoluiu para se importar com o que os outros pensam e isso é uma verdade. É muito importante que a gente se importe com os outros. Emoções secundárias como vergonha e culpa são emoções de filiação aos grupos. Se eu tenho culpa e eu tenho vergonha, quer dizer que eu me importo com os outros, se eu não tenho nem remorso, nem vergonha, nem culpa, eu tenho traços sociopatas. Então é importante”, pontua Juliana.

Em sociedades ancestrais, ser rejeitado pelo grupo poderia significar risco real de morte. Hoje, embora o contexto seja diferente, o cérebro ainda reage à exclusão social como uma ameaça significativa.

Superexposição, redes sociais e o “olho no olho”

Na era digital, a superexposição traz novos desafios e as pessoas públicas nas redes sociais precisam desenvolver estratégias psicológicas para lidar com críticas e ataques virtuais. A mediação da tela reduz a percepção da humanidade do outro, o que pode intensificar julgamentos e comentários agressivos.

Aprendendo a se ver e a se aceitar

Assistir a si mesmo em vídeo pode ser desconfortável, pois notam-se vícios de linguagem, assimetrias e trejeitos antes despercebidos. No entanto, a tendência é que, com o tempo, ocorra adaptação, pois “a gente tende a ficar bom nas coisas que a gente faz muito”, complementa a psicóloga.

Enfrentar o medo é atravessá-lo

Para Juliana, não há melhor caminho para superar o medo da exposição senão enfrentá-lo, de maneira cuidadosa e planejada. “A gente precisa navegar na direção dos nossos medos, porque muitas vezes, o medo que eu tenho é uma informação que me diz o quão importante é aquilo para mim, mas isso é uma questão de se avaliar caso a caso e se entender se é o momento de enfrentar aquilo, como é que vai ser enfrentado ou se precisa mais tempo ou se precisa ser uma tarefa diferente”, conclui Juliana.

Entre a câmera e o cérebro, não há um inimigo direto, o que existe é um complexo sistema de significados, experiências e emoções que determinam o quanto ameaçador será aquele objeto.

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