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Saúde

Saúde mental de profissionais da saúde exige atenção dentro dos hospitais

Especialista destaca impactos emocionais da rotina hospitalar e aponta estratégias para fortalecimento do cuidado humanizado

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Durante uma cirurgia, o médico precisa de total concentração, é um momento de muita tensão e, quando
Stefany Ansolin, psicóloga formada pela UPF e especialista em psicologia hospitalar pelo Hospital Is
Por Marcelo V. Chinazzo
Foto Arquivo pessoal/Dra. Hosana R. Chinazzo e Arquivo pessoal/Stefany Ansolin

O ambiente hospitalar é marcado por desafios constantes. Na área da saúde, o contato frequente com dor, sofrimento e morte faz parte da rotina e pode impactar diretamente a saúde mental dos profissionais. A exposição contínua a pacientes em estado grave, perdas e limitações terapêuticas tende a gerar estresse emocional, sentimentos de impotência, frustração, luto e esgotamento.

Ainda assim, existem estratégias capazes de minimizar esses impactos, como grupos de conversa sobre situações difíceis, trocas entre colegas, psicoterapia, suporte emocional institucional e a atuação da psicologia hospitalar, que oferece cuidado não apenas aos pacientes e familiares, mas também às equipes.

A psicóloga Stefany Ansolin, formada pela UPF e especialista em psicologia hospitalar pelo Hospital Israelita Albert Einstein explica que “a ligação profissional com a área da saúde exige comprometimento emocional e disponibilidade para cuidar, características frequentemente associadas à vocação e ao propósito de quem escolhe essa profissão. Ao longo do tempo, muitos profissionais desenvolvem resiliência profissional, encontrando significado no cuidado oferecido mesmo em contextos de perda e finitude”.

Segundo ela, o próprio ambiente de trabalho pode se tornar um espaço de acolhimento, respeito e valorização da dimensão humana do cuidado.

Impacto psicológico em casos de violência e abuso

De acordo com Stefany, “casos de violência e abuso podem produzir impactos psicológicos diferentes, embora ambos sejam experiências potencialmente traumáticas”. Ela ressalta que cada indivíduo reage ao trauma de maneira singular, por isso, é fundamental respeitar a individualidade, acolher e compreender cada situação, considerando a história e as necessidades de quem vivenciou a experiência, bem como do profissional que está cuidando desse caso.

Lidar com o sentimento de impotência

Sentir impotência diante da impossibilidade de salvar uma vida é uma reação humana e esperada, especialmente em profissões de cuidado, pois toda vida tem um limite e cada trajetória é única.

Elaborar esse sentimento envolve ressignificar o papel do cuidado, compreendendo que nem sempre a cura é possível, mas o alívio do sofrimento, a presença e a dignidade sempre são. Reconhecer limites profissionais e humanos, compartilhar experiências com a equipe, validar emoções e construir rituais simbólicos de fechamento também auxiliam nesse processo. “Na psicologia hospitalar, essa vivência frequentemente se transforma na compreensão de que nem sempre é possível salvar, mas sempre é possível cuidar”, salienta a psicóloga.

Reconhecendo o luto dos profissionais de saúde

O ser humano por trás do profissional de saúde sente, chora e se frustra como qualquer outra pessoa. No entanto, o luto pela morte de pacientes nem sempre encontra espaço de expressão dentro das instituições. “Muitas vezes espera-se que o profissional mantenha a objetividade e continue trabalhando normalmente após um óbito, o que pode tornar esse luto silencioso. Desenvolver momentos de escuta e acolhimento dentro das equipes ajuda na elaboração dessas experiências”, pontua Stefany.

De modo geral, o luto dos profissionais ainda é pouco reconhecido institucional e socialmente, apesar de ser frequente.

Sinais de esgotamento emocional ou burnout

O burnout costuma se instalar de forma gradual e entre os principais sinais estão a exaustão emocional, com cansaço constante e sensação de sobrecarga, o distanciamento afetivo, irritabilidade, frieza emocional e perda de empatia, a redução da realização profissional, com sentimentos de ineficácia e desmotivação e alterações do sono, dores de cabeça, tensão muscular, dificuldade de concentração e ansiedade.

Segundo Stefany, “o burnout está relacionado ao estresse ocupacional crônico, especialmente quando há alta demanda emocional, pouca autonomia, sobrecarga de trabalho, falta de reconhecimento e poucos espaços de apoio”.

Resistência à ajuda psicológica na área da saúde

Apesar dos avanços, ainda existe certa resistência entre profissionais da saúde em buscar apoio psicológico, porém, esse cenário tem mudado gradualmente, especialmente após a pandemia, com maior valorização da saúde mental e incentivo à psicoterapia, grupos de apoio e programas institucionais de cuidado ao cuidador.

“Buscar ajuda psicológica não significa fragilidade, mas sim autoconsciência e responsabilidade com o próprio cuidado e com a qualidade do trabalho realizado”, frisa.

Suporte psicológico institucional

O suporte psicológico institucional tem impacto direto no bem-estar dos profissionais e na qualidade do atendimento prestado. Estratégias estruturadas podem reduzir o estresse, diminuir o risco de burnout, fortalecer o sentimento de pertencimento e melhorar a comunicação entre as equipes. “Para o cuidado em saúde, isso se traduz em atendimento mais humanizado, melhor manejo de conflitos, menos afastamentos por adoecimento emocional e maior continuidade do cuidado”, afirma a psicóloga.

Esse suporte pode ocorrer por meio de grupos de escuta, supervisão, reuniões após eventos críticos, programas de saúde mental do trabalhador e capacitações, transformando o sofrimento individual em elaboração coletiva.

Cuidar da saúde mental da equipe melhora o atendimento ao paciente

Profissionais que cuidam de sua própria saúde mental desenvolvem maior capacidade de escuta e empatia, tomam decisões clínicas com mais segurança, mantêm comunicação mais clara e apresentam maior tolerância ao estresse. “Dessa forma, fortalece-se a qualidade do cuidado oferecido, reafirmando que não existe cuidado humanizado ao paciente sem cuidado com quem cuida”, conclui Stefany Ansolin.

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