O pote de ouro não está no final do arco-íris
Normalmente, quando alguém conta que vai ser pai, o que as pessoas tem para dizer é “boa sorte”, como se a paternidade fosse um peso, um problema, algo negativo. Coitados, não sabem o que dizem. Filho é bênção, para além do sentido religioso e, uma das maiores que existem. É verdade que, no começo, existe a privação do sono, a rotina vira de cabeça para baixo e você precisa se adaptar, pois há uma nova vida que depende de você para absolutamente tudo, mas a verdade é que não demora muito para perceber algo curioso, é você quem passa a depender totalmente daquele serzinho, do sorriso, do abraço, do cheiro, dos vários “papai” ao longo do dia e da noite.
“Ah, mas se eu não tivesse filhos poderia jogar bola, maratonar uma série, sair à noite, agora não tenho tempo para mais nada, ele me toma o tempo todo”. Mentira. Você continua podendo fazer tudo isso, criança não toma tempo de ninguém, o que falta ali é organização e diálogo. Se há parceria dentro de casa, cada um faz a sua parte, o peso se divide e todo mundo tem o seu tempo, entre pai e filho, entre mãe e filho, entre casal e sozinho e com uma rede de apoio, dá até para programar um vale-night. Se a guarda é compartilhada, os dias sozinho também podem ser aproveitados para essas coisas.
A criança não é uma vilã do tempo, pelo contrário, ela devolve as horas que antes eram gastas com procrastinação, reclamações, mágoas antigas ou picuinhas. Um filho chama para a vida, ajusta teu rumo, teu ritmo e te ensina, na prática, que o momento certo é o agora. Um filho te coloca o tempo inteiro no presente e isso sem dúvidas, com o perdão do trocadilho, é o maior presente que você pode receber.
A gente passa o dia correndo, querendo impressionar sabe-se lá quem, perseguindo um pote de ouro no fim do arco-íris, só que o tesouro não está lá, não. Está no quarto, sentado no chão, montando Lego, criando torres enormes, inventando planetas, construindo foguetes e se passando por astronauta, inventando corridas de carrinhos em pistas malucas entre dinossauros e dragões, ou travando batalhas imaginárias com espadas Jedi. Porém, nessa busca desenfreada por mais dinheiro, por dar conta de tudo e de todos, acabamos acreditando que não temos tempo e, que estar com uma criança é desperdiçar ainda mais. Sem perceber, esquecemos que é justamente esse tempo com nossos filhos que nos devolve vida e sentido.
Já repararam que muitas vezes ao ouvir ou ler alguma reportagem onde se colocam números, elas até chocam, mas seguem distantes da nossa realidade, até que elas ganham um nome que nos é próximo? É porque, no fundo, sabemos que o que importa não são números, são pessoas. Não é o resultado que alguém cobra para encher o próprio bolso, enquanto o teu salário não cresce, tanto que trabalho nenhum hesita em substituir você quando for conveniente. Isso, sim, consome tempo e saúde mental, não um filho e o tempo que você passa com ele.
O que importa não é o quê, mas sim, quem. É quem chama “papai” quinhentas vezes por dia, é quem corre para o seu colo quando você abre a porta depois de um dia de trabalho ou quando te vê chegando na escola para busca-lo, é quem diz que vai sentir saudade durante o dia, é quem fala o mais sincero “te amo tanto”, seja deitado no sofá relaxando um pouco ou seja no meio de uma brincadeira. É quem fala “obrigado papai, seu almoço está muito decilioso”, é quem faz tudo igual a você, não porque não tem personalidade, mas é porque te vê como um herói. Ele não te chama quinhentas vezes por dia para nada, para te testar, te encher o saco ou o que for, ele te chama porque se sente seguro, porque precisa e quer você por perto.
Então, em vez de “boa sorte”, dê apenas os parabéns a quem vai se tornar pai, logo ele vai perceber que o tempo ganha outro sentido e que sorte é ser pai. Claro, às vezes a gente só que quer cinco minutos de paz, normal, mas se nesse tempo, alguém te pegar pela mão, só vai, essa mãozinha está te convidando para viver. Se mesmo que naquele minuto de paz e respiração, ouvir aquela vozinha “papai, terminei, vem me limpar”, talvez seja um convite para limpar o que já não cabe mais e aproveitar a vida com leveza. Talvez aquele “papai, vem brincar” é um convite para você não esquecer jamais a criança que ainda vive dentro de você. Filho não rouba tempo, ele te devolve o tempo, traz sentido às tuas horas e te mostra que viver vale a pena, onde quer que você esteja.