Vou interromper os artigos sobre os animais benéficos ao ser humano, haja vista um novo fato relevante para a agricultura familiar da região do Alto Uruguai.
No dia 12 de julho de 2016 escrevi um artigo descrito abaixo, no qual retratei o arranquio de ervais na região do Alto Uruguai. Infelizmente, neste momento há uma repetição do que aconteceu há 10 anos: um novo arranquio de ervais plantados.
Em décadas passadas, esta cultura chegou a ser uma das principais atividades agrícolas do sul do Brasil, juntamente com a madeira das araucárias. Da mesma forma, em passado recente, foi importantíssima para o desenvolvimento dos municípios da região da AMAU. Havia aproximadamente 10.000 ha de ervais plantados, representando 7,5% da produção brasileira. Com o passar do tempo, a cultura foi perdendo espaço para outras culturas anuais, como trigo, milho e soja. Inclusive, muitas indústrias ervateiras fecharam as portas.
O que havia escrito: “Nestes meses de junho e julho presenciamos novamente o arranquio de ervais plantados e nativos na região do Polo Ervateiro Regional do Alto Uruguai. As razões dessa nova ‘desilusão e desestímulo do produtor’ são de diversas ordens, como: excesso de oferta de matéria-prima (folha), que fez os preços caírem, chegando a R$ 8,00/arroba posta na indústria. É a famosa ‘lei da oferta e da procura’; a falta de mão de obra para a colheita, que ainda é manual; o preço elevado da soja e do milho em comparação com a erva-mate; os terrenos levemente ondulados e ondulados, que favorecem o plantio de culturas anuais mecanizadas; a baixa qualidade de alguns ervais plantados; a queda no consumo da erva para chimarrão, devido à crise econômica que afeta a todos; entre outras.
Por outro lado, o consumidor continua reclamando dos preços praticados pelos mercados, muito embora o preço pago ao produtor tenha diminuído drasticamente, caindo de R$ 32,00/arroba no início de 2015 para R$ 8,00/arroba nestes dias. Nas prateleiras dos mercados, a partir de junho passado, é que o quilo da erva-mate começou a ter uma ligeira baixa. Hoje encontra-se erva entre R$ 7,00 e R$ 15,00, dependendo da marca, qualidade e tipo de erva. Contudo, sabe-se que esta ‘nova gangorra’ não é boa para a cadeia produtiva da erva-mate.
Certamente, num futuro breve, os ervais arrancados poderão fazer falta, já que a previsão para a primavera e o verão é de uma nova estiagem. Ora, o preço acima referido não remunera mais o produtor, e este deixa de colocar adubo, de fazer o bom manejo e acaba abandonando e/ou até arrancando o erval, fazendo com que haja menos área plantada e/ou que caia a produtividade. Se realmente ocorrer seca, é certo que cairá a produtividade, baixando de 1.200 arrobas para 500 arrobas por hectare a cada safra de 18 meses (um ano e meio). Assim, poderá ocorrer novamente a falta de matéria-prima, voltando aos preços altos por arroba praticados no início de 2015.
A ‘gangorra’ não é boa nem para o produtor, nem para o ervateiro, e muito menos para o consumidor. Precisamos de equilíbrio e de sustentabilidade contínua da cadeia produtiva da erva-mate. De qualquer forma, ‘bom para uns, ruim para outros’. Lá, naquele polo, arrancam; aqui, no Polo Regional Ervateiro do Alto Vale do Taquari, plantam!”.
Hoje o preço pago pelas indústrias é de R$ 7,00/arroba ao mateicultor, menos que em 2016. O tarefeiro, que colhe a erva e a transporta até a ervateira, ganha R$ 8,00/arroba, totalizando R$ 15,00/arroba. Entretanto, todos os custos daquele período até os dias de hoje duplicaram, seja o adubo, o combustível ou a mão de obra, agravando a situação do produtor.
Da mesma forma, as pequenas indústrias também tiveram seus custos elevados e não conseguem repassar ao consumidor final. As margens dos mercadistas continuam as mesmas, de 30% a 50% do valor do produto. Portanto, muitos já fecharam as portas nos diversos polos ervateiros do RS (Alto Uruguai, Planalto/Missões, Alto Vale do Taquari e Vale do Taquari).
O preço ao consumidor se estabilizou, dependendo da qualidade da erva para chimarrão, entre R$ 8,00 e R$ 23,00/kg. E a corda sempre estoura no elo mais fraco da cadeia produtiva.
Infelizmente, trata-se de um setor desorganizado e desunido. O complexo ervateiro brasileiro só tem um caminho a trilhar para driblar as crises sucessivas e históricas que afetam a atividade ervateira: organização e união setorial, criação de novos produtos, busca de novos mercados e, especialmente, atração de novos consumidores.
Temos 19 estados brasileiros que desconhecem a erva-mate – a planta mais completa do planeta Terra em termos de fitoterápicos e benefícios à saúde humana.