21°C
Erechim,RS
Previsão completa
0°C
Erechim,RS
Previsão completa

Opinião

Depois de tantos amanheceres

Dentro de um novo ano, todos os anos... todas as memórias...

teste
Lucia Pagliosa
Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa - Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada - Membro da Academia Erechinense de Letras – AEL
Foto Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa

Acordei com o sol atravessando a fresta da cortina e com ele a certeza: faço 74 anos. Levantei devagar, não por drama, mas porque a coluna veio sem manual de instrução e agora exige negociação diplomática logo cedo.

Fui ao espelho. Ele, sempre sincero, nunca me deu desconto. Olhei aquela senhora de cabelos claros, teimosamente volumosos, e perguntei: “E então, minha filha, chegamos até aqui?” As rugas responderam antes de mim, em suaves parênteses ao redor dos olhos. São notas de rodapé de uma vida inteira. Não as apago — leio-as.

A pele já não tem a pressa dos vinte, mas ganhou a calma dos que sobreviveram às tempestades. Há uma mancha aqui... outra ali... pequenas ilhas e depressões no mapa do tempo. Penso que cada uma tem endereço: a maternidade, as noites mal dormidas, as provas para corrigir, as preocupações que só as mães conhecem, as festas.  

Sou professora — e desconfio que ainda explico Saussure até em sonho. Ensinei sobre argumentação e aprendi pessoas. Ensinei a oratória e aprendi despedidas.

Volto ao quarto e sento-me no sonolento sofá que já acolheu muitos dos meus dias. Ele conhece minhas alegrias e minhas birras, meus livros e meus silêncios. Cinquenta anos de casamento cabem ali, espremidos entre almofadas que ouviram discussões sobre o andar da carruagem (ou da carroça – como queiram) e também promessas sussurradas depois do perdão. Amar por meio século é um exercício de alongamento da alma. A gente aprende que razão demais endurece e carinho demais salva. Meio século de casamento com o primeiro namorado é como atravessar um rio largo sem perceber, exatamente, onde começou a outra margem. É ter a certeza de que até atravessar o deserto a dois, vale a pena.

Lembro-me, então de “A Lista”, de Oswaldo Montenegro - “Quem você mais via há dez anos atrás? Quantos você ainda vê todo dia? Quantos você já não encontra mais?” E penso nas perdas. Perdi meus pais, perdi irmãos (ainda bem que só dois, mas exemplares únicos – tenho mais oito), perdi alguns amigos pelo caminho, custei um pouco mais para perder a pressa. Perdi a cintura fina e a ilusão de que controlo o mundo. Mas ganhei três filhas... adotei três genros... presentearam-me com quatro netos — ah, os netos! — que me devolvem a infância e a adolescência com juros e correção monetária. Ganhei coragem para dizer “não” sem culpa e “sim” com entusiasmo. Ganhei a liberdade de chorar e também rir dos meus próprios tropeços. Hoje sei que algumas batalhas não valem a energia e que o silêncio, muitas vezes, é a resposta mais elegante.

E o que ficou em mim desse longo caminho? Ficaram os sonhos que não realizei, mas que me mantiveram acesa. Levo o desejo de aprender mais uma coisa nova, talvez aquele idioma que abandonei ou uma receita, enfim, de algum prato que nunca cozinhei. Ficou a esperança teimosa de continuar útil, de continuar ensinando — nem que seja aos meus próprios medos.

Aos 74, descubro que envelhecer é ganhar um humor mais fino. A gente ri da pressa dos jovens, mas secretamente admira. A gente reclama de que os jovens não leem porque estão sempre nas telas, mas não vive sem celular e manda áudio, a toda hora, no grupo da família. O espelho ainda me espera amanhã. Sei que será fielmente impiedoso. Eu também estarei lá, talvez com uma ruga a mais, porém com um sonho intacto. Estar aqui, depois de muitos calendários, trouxe marcas, sim, mas também uma serenidade conquistada passo a passo. E talvez o maior ganho seja emocionar-me com o que o tempo fez comigo: retirou-me os excessos, as urgências. Deu-me leveza. Lapidou ilusões e revelou forças que eu nem sabia possuir. Deu-me a coragem de ser quem sou sem pedir licença.

Sei que tenho menos pela frente do que eu já vivi, mas graças dou por sentir-me leve. Tão leve como quem aprendeu a tirar de si o que não era essencial, deixando apenas o que ainda pulsa — a vida.

Publicidade

Blog dos Colunistas

;