Culpa é um substantivo que deriva do verbo culpar e creio que a culpa é um desses substantivos/verbos que são inerentes a paternidade e maternidade. A gente se culpa pelo sim, pelo não e até pelo talvez. Antes de ser pai, eu me perguntava, “será que é tanto assim?”. É, é exatamente assim, talvez até mais.
Desde o começo vivi uma paternidade um pouco diferente dos padrões que ainda vemos por aí e, quando falo diferente, não falo de nenhuma condição específica, falo de presença, de participação. E no meio dessa paternidade diferente eu vivi tudo. Vivi cada instante, cada emoção, cada alegria, cada medo, cada dor e, claro, cada culpa, desde o primeiro teste positivo. Foi um combo e, de certa forma, continua sendo.
Lá atrás, em meio a emoção de descobrir que seriam gêmeos, desejei que fosse um casal e que fossem saudáveis. Mas no primeiro ultrassom morfológico já veio o primeiro baque, aquele pé na porta que a vida dá para lembrar que expectativas são nossas e que ninguém, muito menos os nossos filhos tem o dever de supri-las. Não eram um casal, mas sim, dois meninos e um deles, tinha uma cardiopatia congênita. Veio o choque, a felicidade, um amor imenso, o medo e ela, a culpa. No fim da gestação, com a perda, a culpa se intensificou. Desejei tanto um casal saudável, que já me perguntei muito se foi por não corresponder às minhas expectativas iniciais, que ele resolveu partir. Será que ele não quis ficar por medo de não ser amado? A culpa, desde então, me acompanha.
Com o tempo, outras emoções foram surgindo e a culpa sempre como companhia. Desde o começo sempre fiz questão de estar presente na vida do meu filho, queria que ele crescesse com a certeza e a tranquilidade de que eu sempre estaria ali. Passávamos o dia juntos e, quando a mãe chegava à noite, era uma festa. Eu sempre achei bonito. Ele sentia saudade e quando ela chegava, ele aproveitava cada segundo. Até que em alguns momentos eu quem passava um pouco mais de tempo fora e comecei a perceber que a recepção não era tão intensa e, então a culpa bateu à minha porta, a culpa de não ser um bom pai e de não ser presente. Será que fiz um bom trabalho e ele não precisou sentir saudade? E por alguns segundos eu ficava em paz. Até me dar conta que a mãe dele, mesmo com horários diferentes, sempre foi extremamente presente, amorosa e cuidadosa, uma mãe incrível e mesmo assim ele sentia falta. Então eu pensava “será que minha presença é simplesmente “tanto faz como tanto fez”?”.
E sei que a mãe dele carregou e carrega culpas semelhantes e talvez a contradição da paternidade seja essa, é muito fácil olhar a culpa do outro e dizer que ela não faz sentido, o difícil mesmo é convencer a si próprio disso.
Bom, eu sempre preferi acreditar na primeira hipótese, a de que ele sabe que eu sempre estarei por perto, até para não cair naquela competição sem sentido entre os pais, e que tenho visto muito por aí, para ver quem ama mais, quem cuida mais ou quem é mais necessário. Porém, na última semana, algo me deixou em choque. A professora disse que meu filho havia sentido saudades do pai durante a aula. Talvez vocês possam pensar que fiquei feliz, afinal, quer dizer que eu faço falta, mas a verdade é que não fiquei. A culpa veio forte e de um jeito difícil de explicar. Se ele sentiu saudade, significa que eu não estou presente o suficiente. E agora? Da mãe ele sentia saudade e ela sempre esteve presente e tudo parecia fazer sentido. Por que comigo seria diferente? Não sei, só sei que a culpa vem. Estranho? Contraditório? Talvez. Mas suspeito que seja apenas mais um capítulo desse curioso e confuso mundo chamado paternidade.
Acredito que o grande pulo do gato seja descobrir como lidar com algo que vai nos acompanhar paternidade a fora para que não haja excessos e nem faltas, tornando essa relação entre pais e filhos o mais saudável possível. Estou me esforçando para aprender. Juro.