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Opinião

A magia da infância

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Marcelo V Chinazzo
Por Marcelo V. Chinazzo – Pai do Miguel e do Gael, jornalista e escritor
Foto Marcelo V. Chinazzo

Quem tem filhos sabe que tudo muda, que o ritmo é outro, que a vida ganha novas cores, novos sabores, novos contextos, novas texturas. A vida ganha, ou melhor, resgata uma magia inexplicável, diferente de qualquer conto de fadas.

Às vezes meu filho se machuca, pede um beijo e pronto. Fica curado e volta a brincar como se nada tivesse acontecido. Quem dera eu tivesse esse poder, assim nunca o veria doente ou com dor, e o nosso pequeno Gael estaria aqui, descobrindo se ia gostar mais de kiwi ou de morango.

E, enquanto me perco nessas perguntas sem resposta, ouço meu filho dizendo aos amiguinhos na escola: “o meu pai é muito forte”, “pede para o meu pai que ele consegue, ele é muito forte”. Ele nem imagina que essa força toda é mais parte da imaginação dele e da minha vontade de deixá-lo sempre seguro e, quem sabe, ser o herói que ele acredita que eu sou.

Não sou um chef, mas me viro e preparo pratos, ao meu ver, “minimamente comestíveis”, mas para ele tudo é sempre “decilioso”. Não sei até quando será assim, mas sei que isso traz uma paz gostosa, que nem o caos do mundo lá fora dá conta de acabar, pois, apesar de tudo, quem realmente importa me enxerga e, isso não tem preço.

A vida adulta, porém, insiste em nos dar um chá de realidade. O mundo corporativo, por exemplo, finge se importar com a saúde mental de seus colaboradores apenas para cumprir leis e relatórios, enquanto nos esgota em doses homeopáticas ou cavalares, conforme o dia e o grau de ganância. Substitui e descarta com uma facilidade surpreendente. Ainda bem que as crianças vivem num universo paralelo, onde a mediocridade não encontra espaço. Em que parte do caminho nos perdemos da magia e da pureza que um dia tivemos? Por que tratamos a infância como uma fase que passa, e não como a base mais sólida de toda a vida?

Não sei quando a magia da infância vai começar a desaparecer no mundo do meu filho. Sinceramente, espero que nunca. Quero que ele cresça, sim, que se torne um adulto responsável, mas que nunca perca a empatia, o respeito e a capacidade de enxergar o extraordinário no ordinário.

E então recebo um choque de realidade. Descubro que, na escola, brincando com uma colega, ele era o “papai” e ela a “mamãe”. Ela embalava um carrinho com uma boneca numa mão e, na outra, mexia numa calculadora fingindo ser um celular. Ele fazia igual, uma mão no ombro dela e a outra na calculadora-celular. Eles são pequenos, talvez nem entendam tudo o que isso representa, mas eu entendi. Doeu, porque talvez essa seja a imagem que ele tem de mim, de um pai presente de corpo, mas ligado na tela. Ou talvez seja só o reflexo de todos nós, adultos, que transformamos o celular em extensão do nosso corpo.

De qualquer forma, essa brincadeira “me pegou” em dois pontos. O primeiro é que exemplo estou dando ao meu filho? Como quero que ele me veja e como ele, de fato, me enxerga? E o segundo é que percebo que essa imagem de super-herói que ele projeta vai se dissolvendo junto com a magia. Eu não quero ser “super” nada, só um pai. Um pai que erra e falha, mas que tenta e está ali, presente, de corpo e alma. O pai que reconhece o choro dele a quilômetros de distância e também o reconhece de pertinho, no íntimo, no coração. Que sabe seus pratos, suas cores e suas brincadeiras favoritas, mas que também conhece suas dores, suas alegrias e seus medos pequeninos. E o que eu quero é que ele me veja e me sinta inteiro para ele quando estou com ele, bem como em tudo o que eu for fazer. E que, se para manter viva a magia da infância for preciso que esse pai imperfeito vista a capa invisível de super-herói, então que seja, serei seu super-herói.

Outro dia, com medo de dormir por causa dos sonhos, deitamos na cama e ele me abraçou. Ficamos ali, coração com coração, e ele começou:

— Papai, você é muito forte, né?
— Você acha, filho?
— Sim, você é grande e forte!
— Então tá bom.
— Você tem medo? Você chora?
— Sim, o papai chora e sente medo. Adultos também choram e têm medo.
— Você tem um medo?
— Papai tem medo de ficar longe de você.
— Eu tenho medo de sonhos. Papai, você vai ficar sempre pertinho de mim?
— Sempre, filho. Você não precisa ter medo, porque o papai está sempre aqui.
— E se você estiver no seu trabalho e eu na minha escola e der saudade?
— É só fechar os olhinhos e colocar a mão no seu coração, que o papai vai estar com você.
— Papai, posso ficar grudadinho em você sempre?
— Pode, filho. Vamos ficar sempre grudadinhos.
— Te amo, papai.
— Te amo muito, meu amor.

São alguns desses momentos que, ao mesmo tempo que me mostram que estou no caminho certo, revelam o quanto ainda preciso evoluir, principalmente na questão do celular. Não quero ser uma presença ausente. E eles também me mostram o mais importante, o valor imensurável da magia da infância. Essa imaginação, essa pureza, essa fé nas coisas simples, que ele ajuda a resgatar em mim e que quero que ele leve para sempre. E que, quando a vida adulta chegar com todas as suas nuances, particularidades, correrias, responsabilidades, cobranças e demandas, ele tenha doses cavalares de encantamento guardadas para lembrar que, mesmo quando for médio igual à mamãe ou grande igual ao papai, não precisa deixar de ser criança.

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