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Opinião

Leitura, consciência e liberdade

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Por Elcemina Lúcia Balvedi Pagliosa - Professora da URI Erechim – Doutora em Linguística Aplicada Membro da Academia Erechinense de Letras – AEL

A abertura de uma Feira do Livro é sempre mais do que um evento: é um convite silencioso para atravessar portas invisíveis. Em meio ao burburinho das bancas, ao riso solto das crianças, ao cheiro do papel e ao gesto quase ritual de folhear páginas, há algo que pulsa além da compra e da venda. Existe uma promessa de encontro e de deslocamento. Ler, afinal, não é apenas um ato: é uma travessia íntima que nos retira do lugar comum e nos devolve transformados — mais atentos, mais inquietos, mais humanos.

Nesse clima, há quase dez dias vivemos a XXVII Feira do Livro de Erechim, e isso, inevitavelmente, nos conduz a algumas perguntas: Ler por quê? Ler para quê? Já não se lê o suficiente nas escolas? Pão, água, música, festa e dança não bastariam a um povo? Ainda há quem pense que a leitura pertence ao tempo ocioso, como se fosse privilégio de quem não precisa trabalhar.

         Mas a leitura faz justamente o contrário: ela rompe a repetição. Num mundo que insiste em nos oferecer as mesmas narrativas, os mesmos discursos e respostas prontas, o livro surge como interrupção necessária. Ele desorganiza o automático, rompe a previsibilidade dos dias e nos obriga a pensar além do roteiro conhecido. Ao acompanhar a inteligência irônica de Memórias Póstumas de Brás Cubas, somos arrancados da linearidade confortável e convidados a olhar a vida por ângulos inesperados.

          A leitura também amplia a visão de mundo. Por meio dela, habitamos outras geografias, atravessamos épocas, compreendemos culturas e reconhecemos dores e alegrias que não são nossas — mas passam a ser, de algum modo. Em Grande Sertão: Veredas, o sertão deixa de ser apenas paisagem e se transforma em universo filosófico, humano e profundamente complexo.

         Além disso, ler fortalece o pensamento crítico. Ao entrar em contato com ideias diversas e perspectivas muitas vezes opostas às nossas, somos convidados a refletir, comparar e questionar. O leitor não apenas recebe - ele dialoga. Em Torto Arado, de Itamar Vieira Junior — presença marcante nesta Feira —, a dureza da existência nos obriga a encarar injustiças e silêncios que exigem posicionamento.

         Por isso, a leitura também reduz a manipulação. Quem lê reconhece nuances, percebe intenções e identifica contradições. A leitura afina a escuta e aguça o olhar, tornando mais difícil aceitar verdades impostas sem questionamento. Em tempos de excesso de informação e escassez de reflexão, ler é também um ato de resistência lúcida.

          Ler, ainda, gera autonomia intelectual. Não dependemos apenas do que nos dizem: buscamos, confrontamos, investigamos. O leitor aprende a sustentar suas ideias, revisar certezas e não delegar a outros o direito de pensar por si.        Há nisso uma liberdade que não pode ser concedida — apenas conquistada, palavra por palavra.

       E talvez sua forma mais profunda de liberdade esteja justamente aí: a leitura liberta a mente. Ao ler, viajamos sem sair do lugar, dialogamos com vozes distantes no tempo e exploramos o possível e o impossível. A imaginação, quando alimentada, torna-se um território onde nenhuma grade nos aprisiona e onde asas nos levam às alturas.

         E há ainda algo mais sutil — e talvez mais decisivo. A leitura não apenas nos leva para fora: ela nos traz de volta. Ao nos reconhecermos nas palavras alheias, compreendemos melhor o que sentimos, organizamos o que parecia confuso e nomeamos o que parecia indizível. O leitor não retorna intacto: retorna ampliado. Nunca mais será o mesmo.

         Talvez por isso a leitura liberte. Não porque nos afaste do mundo, mas porque nos devolve a ele com mais consciência, menos ingenuidade e maior responsabilidade. E há poucas formas de liberdade tão exigentes — e tão profundamente humanas — quanto essa.

          Leiamos. Este é mais do que um convite: é um chamado. A leitura permanece quando o ruído do mundo silencia, quando a pressa cansa e quando a solidão ameaça se instalar. Ela é abrigo, travessia e companhia. Quem lê nunca caminha inteiramente só, porque entre páginas e palavras há sempre uma presença que sustenta, ilumina e permanece.

Em tempo: Este texto é uma homenagem ao Patrono da XXVII Feira do Livro de Erechim – Alcides Mandelli Stumpf e ao Homenageado – César Stanisçuaski.

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