Escrevo para pais, professores e quem ainda acredita em páginas viradas; gente que ama o cheiro de livro novo e zela pelos mais antigos. Olhemos para a vigésima sétima Feira do Livro de Erechim. Mesas de autógrafos, sacolas cheias, crianças felizes, pais apontando para os gibis. Isso aqui não é feira. Transformamos o Jardim do Quintana em um canteiro de obra. Estamos construindo cabeças, novos seres pensantes, com senso crítico e discernimento.
E por que eu escrevo sobre construção? Porque antes dos 7 anos, 90% do cérebro já levantou suas paredes. Cada história é cimento. Cada livro negado, não oferecido, é um buraco na laje.
A gente anda pela feira e vê Harry Potter, Turma da Mônica e O Pequeno Príncipe dividindo mesa. Não é coincidência. É o mapa do caminho para a sabedoria.
Escrevo porque livro na infância é inegociável, é obrigatório! Estamos falando de mais do que ensinar palavras, porque palavra vira poder. Criança com livro em casa escuta até 30 mil palavras a mais até os 6 anos. No futuro, isso tudo vira argumento, redação, entrevista de emprego. Vocabulário é passaporte para o portal que abre o futuro para um outro mundo.
O livro é um libertador para a vida inteira. Ninguém quer que o filho sinta rejeição. Mas, se ele não estiver preparado, vai sentir. Aí ele vai lembrar do Patinho Feio e descobrir que o cisne demora para surgir, mas surge, esplendoroso, vencedor.
Livro treina para o tombo real. Ensina sobre limites, como em O abraço de Cacau, e também ensina sobre amor e segurança, como em O Fio Invisível.
Treinamos a mira, o foco. Atenção não é músculo; perseverança não é força bruta, é fé no que se acredita.
A tela pisca, o livro não. Menino que segura 300 páginas de A Pedra Filosofal segura depois 3 horas de estudo. Porque aprendeu a esperar o próximo capítulo.
E, no Brasil, sabemos fazer isso muito bem. Monteiro Lobato inventou um sítio onde boneca fala e sabugo vira gente; botou a Emília pra dizer na cara do Marquês de Rabicó: “Eu não nasci pra obedecer”. Ziraldo desenhou um Menino Maluquinho com panela na cabeça e provou que alegria também é currículo. Ruth Rocha deu ao Marcelo, Marmelo, Martelo o direito de renomear o mundo. Joemir Rosset nos traz as aventuras de Mártin pra explicar que alegria e amor moram na mesma casa.
Lá de fora veio reforço importante: os Irmãos Grimm avisaram que a floresta tem lobo, sim. Mas tem lenhador também. Hans Christian Andersen contou que até soldadinho de chumbo de uma perna só tem história de amor. Saint-Exupéry desenhou uma caixa e disse “teu carneiro tá aí dentro”. Porque a criança completa o que falta e inventa o que quer. E Roald Dahl abriu A Fantástica Fábrica de Chocolate pra mostrar que caráter não se compra com bilhete dourado.
Então eu, como patrono desta Feira do Livro, tenho um pedido a fazer.
Digo para você, pai e mãe: Livro é o brinquedo mais barato da banca. R$ 30 hoje poupam R$ 3 mil de reforço escolar amanhã. Use 15 minutos por noite. Leia no sofá, na mesa, na cabeceira da caminha. Filhos esquecem os tablets que quebraram, mas jamais esquecem a sua voz lendo as histórias mais lindas do mundo e da vida.
Para você, professor: a feira acaba domingo. Na segunda, a biblioteca abre. Deixa rasgar. Livro com orelha dobrada é livro que viveu. Alice não foi feita pra ficar em estante alta. Foi feita pra cair no chão da sala. Leitura não é “quando sobrar tempo”. É o motivo de ter escola, é um passo que determina a vitória.
E vocês, adultos que estão lendo este texto agora: Parem com essa frase “criança não lê mais”. Lê, sim. Se a gente der história boa. J.K. Rowling botou 500 milhões de crianças em fila à meia-noite. Não foi mágica. Foi trama. Foi coragem de dizer: “criança aguenta livro grande”. Lobato falou que “um país se faz com homens e livros”. Nesta feira eu corrijo: um país se refaz com crianças e livros. Porque adulto a gente até remenda. Mas infância sem história, não tem conserto.
Saiamos daqui com sacolas — que pesem mais pelo papel do que pelo plástico. Porque cada livro levado, de Reinações de Narizinho a O Pequeno Príncipe, A Ilha do Tesouro a tantos outros, é um tijolo colocado com intenção. E o futuro, meus pais, tias, padrinhos, não se improvisa: ele se constrói, página por página. Boa feira. E que amanhã a fila mais longa seja a da biblioteca. Desta vez vamos alimentar o espírito e não gastar tempo apenas na da praça de alimentação.
Neste sábado, 9 de maio, às 16h, o Dr. Neri Volpatto, médico pediatra, eu e a professora Dra. Daniela Vanessa Klosinski estaremos numa Roda de Conversa com o título “Receite um Livro”. Ficaremos muito felizes com a presença de vocês.