Dia desses, ainda em outubro, às voltas com uma atividade na universidade, eu precisei retomar no kindle um livrinho adquirido durante a quarentena imposta pela pandemia – lá se vão cinco anos, já, não é incrível? Trata-se de “Stand out of our Light: Freedom and Resistence in the Attention Economy”, de James Williams, publicado em 2018. “Saia (ou saiam) da nossa Luz: Liberdade e Resistência na Economia da Atenção”. Antes de explorar o tema da Economia da Atenção – a ideia de que nossa atenção se tornou uma mercadoria nos tempos que correm, com consequências perigosas -, interesse principal deste texto, quero escrever a respeito do “stand out of our light” que nos traz o título, está bem? Para isso, precisamos ir até Diógenes de Sínope, na Grécia antiga.
Diógenes, ele mesmo: o filósofo que vivia em um barril, como o Chaves, e que, como o Jesus dos Franciscanos (e como o próprio Francisco de Assis), não possuía absolutamente nada de seu. O filósofo que foi descrito por Platão como “um Sócrates que enlouqueceu”, e que está nos livros de Filosofia como pertencendo, e tendo mesmo iniciado, a Escola dos Cínicos (de “kynikos”, ou semelhante a um cão), escola para a qual uma vida que vale a pena ser vivida teria de ser uma vida o mais despojada possível. É que uma vida o mais despojada possível seria o mais próximo de uma vida verdadeiramente livre, para Diógenes: sem os grilhões do trabalho, sem propriedades ou preocupações decorrentes da manutenção ou necessidade de acúmulo dessas propriedades, sem a opinião dos outros (restrições externas); e também sem o descontentamento trazido pelo desejo ou pelo medo (restrições internas). Eu e meu barril contra o mundo, essa é a palavra de ordem de Diógenes. Mas não só: uma vida baseada no cultivo da razão e vivida junto à natureza - mais tarde, quando Zenão de Cítio funda a Escola dos Estoicos, o faz muito inspirado na filosofia de Diógenes.
Mas e o “stand out of our light”? Paciência, caro/a leitor/a, e não economize sua atenção: estamos chegando lá. É que precisamos de mais um personagem nessa narrativa. Alexandre, o Grande. O aluno de Aristóteles. O leitor incansável da Ilíada. O sujeito que herdou de seu pai, ampliando-o e botando-o em andamento, o projeto “pan-helênico”, o ímpeto de levar a cultura grega até o fim do mundo (chegou à Índia, de onde teve de voltar) – num delírio colonial/imperial expansionista digno da Europa da Modernidade.
Pois esse mesmo Alexandre, movido por tais e quais ambições, desmedidas ambições, quis conhecer justamente quem? Tu já adivinhaste, caro/a leitor/a. Ele, que alguma coisa terá aprendido com Aristóteles e com Homero, quis conhecer ninguém menos que Diógenes de Sínope. O que se passou nesse encontro, que fontes mais tardias (Plutarco, por exemplo) têm como no mínimo verossímil? Ecoando o diálogo entre o Diabo e Jesus no deserto, e mesmo a narrativa do Príncipe e o Mendigo, tal como em Mark Twain (ou mesmo a de um Gênio da Lâmpada que Aladin, no entanto, não invocou), Alexandre diz a Diógenes que deseja dar-lhe tudo o que o filósofo quiser. Diógenes responde (trago a minha versão): - Dá uma arredada para o lado, menino, tu tá tapando o sol. Stand out of my light.
Não é interessante que James Williams tenha evocado essa imagem, com toda a simbologia envolvida, para intitular um livro que tem como tema a ideia de que nossa atenção, tornada mera mercadoria, tem sido capturada, disputada – colonizada – pelas plataformas digitais (publicidade, streamings, redes sociais) de modo a controlar nossos desejos e tempo livre, com consequências potencialmente – e não só – nocivas em todas as direções? Que “Alexandre” redivivo é esse que está tapando a nossa luz, e de que modo podemos proteger nossa liberdade e resistir? O livro traz um diagnóstico grave e algumas ideias a esse respeito.
Mas o espaço desta coluna acabou. Nos encontramos na próxima semana!