O mais difícil, mesmo, é a arte de desler, escreveu Mario Quintana um pouco (ou um muito) à maneira de Manoel de Barros. E o fez no “Caderno H”, a coluna que manteve durante muitos e muitos anos no Correio do Povo. Foi ali, também, que publicou o célebre “Poeminho do contra”: “Todos esses que aí estão/ Atravancando o meu caminho/ Eles passarão/ Eu passarinho!”
Lembrei de Quintana, das “ruas de Quintana”, dos céus de Porto Alegre, em razão, é claro, de que sua figura, sua obra e sua memória deram a régua e o compasso temáticos para a Feira do Livro de Erechim deste ano. Do "Caderno H", então, e fechando um arco de três colunas sobre a Feira, recolhi estas breves reflexões, estes aforismos, estes verbetes “de cabeça para baixo”, estes estilhaços em prosa poético-filosófica que permitem ao leitor/a acompanhar os misteriosos caminhos pelos quais caminharam o coração e a mente do velho Mario. You're welcome!
“Relógio. O relógio de parede numa velha fotografia – está parado?”
“Coisas do tempo. Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram: vamos ficando sozinhos uns dos outros.”
“Cartaz para uma Feira do Livro. Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não leem.”
“Cuidado! A nossa própria alma apanha-nos em flagrante nos espelhos que olhamos sem querer.”
“A Esfinge. Na volta da esquina encontrei a Esfinge. Petrifiquei-me. Ela me disse então, olhando-me nos olhos: - Devora-me ou decifro-te!”
“Ser e não ser. Para algo existir mesmo – um deus, um bicho, um universo, um anjo... – é preciso que alguém tenha consciência dele. Ou simplesmente que o tenha inventado.”
“Recato. Não gosto de estar dormindo nem de estar morto perto de ninguém.”
“O assunto. E nem me perguntes o assunto de um poema: um poema sempre fala de outra coisa.”
“A data. Sim, o mais triste das dedicatórias são as datas.”
“A grande surpresa. Mas que susto não irão levar essas velhas carolas se Deus existe mesmo.”
“Conto de horror. E um dia os homens descobriram que esses discos voadores estavam observando apenas a vida dos insetos...”
“A coisa. A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa. E, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.”
“Poesia e magia. A beleza de um verso não está no que diz, mas no poder encantatório das palavras que diz: um verso é uma fórmula mágica.”
“Intrusão. O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente...”
“Notas da cidade. ‘Não gosto da arquitetura nova/ Porque a arquitetura nova não faz casas velhas.’ Não riam, por favor, que o poema é triste.”